Estamos a chegar a mais um aniversário do 11 de Setembro e a televisão está cheia de documentários e notícias. E aqui se vê como damos valores diferentes à vida humana. Não se vêm grandes documentários, não se fala de como mudaram a humanidade, os massacres do Darfur ou do Ruanda. Em qualquer um destes dois casos morreram mais de 100 vezes mais pessoas do que no 11 de Setembro.
Impressiona-nos mais que morram 3 mil pessoas em Nova York do que 800 mil no Ruanda. O ocidente passou séculos a lixar o resto do mundo e agora desde que os massacrados estejam numa zona irrelevante qualquer em África está tudo bem. Gastamos uma percentagem ultra-desequilibrada dos recursos do planeta. Mandamos vir com a desflorestação da Amazónia porque já acabamos com as árvores nos nossos territórios e agora queremos depender das dos outros.
A reacção ao 11 de Setembro inclui a guerra do Iraque que já matou mais de 50 mil civis iraquianos. E por muito que discordemos de Bush o facto de ele e outros como ele serem dirigentes ocidentais é uma falha de todos nós. É tão fácil dividir o bem e o mal sem ver que também nós temos uns fanáticos a dirigir-nos. Com a agravante que os nossos extremistas estão bastante mais bem equipados e são capazes de matar muito mais gente e causar muito mais estragos.
Está na altura de crescermos todos um pouco e admitirmos que muita da culpa do estado em que está o mundo é nossa. Convinha deixarmos de discutir o terrorismo querendo separar o ocidente dos terroristas como se fossem água e azeite. Temos uma história anterior repleta de culpas no cartório pelas condições que criaram o terrorismo. Tivemos uma reacção fantasticamente desproporcionada a alguns pequenos atentados. Reacção essa que só agravará o problema.
Estou convencido que o grande desiquilíbrio que isto revela é o do valor que damos às nossas vidas comparadas com as dos países miseráveis. Temos restrições às importações e à imigração desenhadas para salvaguardar as nossas economias. Mantemos estruturas militares fantásticas que usamos ofensivamente. Derrubamos governos eleitos para trocar por ditadores.
Todo o aparato que é o ocidente isola-o, atrasando o processo complicado e doloroso que vai ser o equilibrar das condições de vida globais. Isto melhora claramente o nosso conforto mas há um preço a pagar. Quanto mais gente descontente e miserável houver no mundo mais extremistas existirão. Quanto mais tentarmos resolver este problema na ofensiva mais extremistas criaremos. Israel é a miserável prova disso.
Não podemos continuar a manter a maioria da população do planeta na miséria e ao mesmo tempo esperar que toda a gente goste de nós. Ou deixamos de lixar os outros ou aceitamos o terrorismo como consequência.
