Revista Atlântico

Comprei por curiosidade a edição de Julho da revista Atlântico. Diz, num daqueles editoriais assinados que agora são moda, ser uma voz que faltava na direita portuguesa. Impressionou-me principalmente pela fraca qualidade. É composta essencialmente por artigos de opinião razoavelmente bem escritos mas pouco relevantes. Tem um artigo bom, muitos ignoráveis e dois ou três assustadores.

O artigo bom é assinado por João Miranda e é sobre o monopólio do Estado em várias áreas. A saber: saúde, educação, reforma, correios, segurança, construção de estradas, portos e aeroportos. O artigo diverge um pouco, falando essencialmente sobre a regionalização, que na direita se chama descentralização, provavelmente para evitar memórias aterrorizantes de António Guterres. Fala disto e bem. Explica que regionalizar reduziria a distância entre o cidadão e o responsável máximo pelo serviço local, melhorando a sua administração.

Em geral concordei com o artigo, com a ressalva de que isso não tem nada a ver com a privatização da educação e da saúde, sobre a qual discordo. Sendo isto uma revista de direita é preciso apontar que a regionalização foi impedida pela direita por ser a errada e esquecida a seguir quando esteve no poder. É preciso também apontar que não há nada de direita nesta ideia. A não ser que sejamos adeptos da teoria de que tudo quanto é boa gestão é de direita e que a esquerda só sabe fazer economias planeadas e estados monolíticos e ineficientes.

O primeiro dos artigos assustadores (mas pouco) é assinado por António Pires de Lima e é sobre como o CDS está sempre encalhado entre os 4 e 9 por cento de votantes e o que fazer sobre isso. Aponta questões essenciais que o CDS deve tratar para convencer mais dos novos eleitores dando o palpite que a área em que é preciso ajustar mais o discurso é a das liberdades fundamentais. Escreve:

"Também eu sou contra a liberalização do aborto, desconfio dos casamentos "gay" e sou contra a adopção de crianças por homossexuais. Mas um partido humanista que se preze não pode deixar de ser compreensivo para com a generalidade das mulheres que abortam evitando sujeitá-las a humilhações desnecessárias. Um partido não confessional deve ser o primeiro a propor leis de união de facto que garantam aos homossexuais todos os direitos que não firam os direitos dos outros."

Comecemos pelo aborto. O CDS é a favor do aborto ser crime. Acha que quem aborta deve ir parar à cadeia. Vir dizer que apesar disso quer ser "compreensivo" e não sujeitar as mulheres a "humilhações desnecessárias" é pura demagogia. Quanto aos casamentos homossexuais gostaria de saber que direito de terceiros é ferido quando dois homossexuais se casam? Não se explica e suspeito que é só um argumento emocional parecido com o do artigo seguinte.

O artigo verdadeiramente assustador é um grande texto assinado por Pedro Picoito que explica que o casamento homossexual não faz qualquer sentido. Entre outras pérolas, está este argumento explicando porque é que a comparação com a luta pelos direitos das minorias raciais não faz sentido:

"(...)compara coisas incomparáveis. Enquanto Luther King ou Mandela exigiam o fim de leis racistas em nome da igualdade, os homossexuais querem o acesso ao casamento em nome da diferença. Por outras palavras querem que a homossexualidade seja uma fonte de direitos."

Isto parece partir do pressuposto que os homossexuais querem o direito a casar-se para evidenciarem a sua diferença. Pressuposto que não sei de onde vem. Sempre que ouvi falar disso pareceu-me que o que querem é ser tratados da mesma forma que todos os outros. Num universo paralelo em que em Portugal houvesse leis racistas e casamentos homossexuais o argumento inverso funcionaria igualmente mal.

Não acaba aqui a loucura. Explica por referências ao direito do império Romano que a "formalização jurídica do casamento teve sempre o objectivo prioritário de proteger a fragilidade social da mulher e dos filhos". Este deve ser o argumento da tradição. Diz depois:

"Não há qualquer desrespeito por direitos fundamentais a justificar o fim de uma instituição cuja estabilidade interessa a todos, apenas a pressão de um lobby minoritário para mudar a realidade por decreto."

É verdade que o casamento não é um direito fundamental, mas a não discriminação com base no sexo já é. Quanto à estabilidade do casamento não percebo em que é que pode ser abalada por passar a haver casamentos homossexuais. A referência a um lobby minoritário é deliciosa. Primeiro porque diz que é minoritário só porque os homossexuais o são. Eu sou a favor do casamento homossexual sendo heterossexual, como é muito mais gente. Está para se ver se somos a minoria. Depois porque parece indicar que os interesses das minorias são ignoráveis e se devem sujeitar à maioria.

Acaba em beleza explicando que os homossexuais querem o casamento, não para o terem em si mas para o atacarem. Querem destruí-lo. Como? "Se tudo é casamento, nada é casamento - e assim acaba a discriminação." E o que vão fazer a seguir? Exigir a adopção. Explica que dar o casamento ou união de facto só abre o caminho para que a seguir se abra o debate de porque é que uns podem adoptar e outros não. Mas se o autor acha que a adopção por homossexuais não deve ser permitida não deve ter medo de ter que o defender. Dizer que não podem casar por causa disso é estar a misturar estratégia política com direitos das pessoas.

Sai-se depois com este fantástico conjunto de perguntas a que tomei a liberdade de responder:

"Porque razão tentam agora entrar em instituições que sempre denunciaram como repressivas?"

O casamento é repressivo exactamente porque a forma corrente discrimina. Querem entrar nesta "instituição" (heh) porque querem que deixe de ser repressiva. Isto de chamar instituição ao casamento é mais uma estratégia política. Terá capital social, sede, cotas e revista mensal?

"Sentiram de repente o apelo do altar e da boa acção diária?"

Não. Só querem mesmo casar-se, não querem nem a sua religião nem a sua moral. Provavelmente é isso que o assusta.

"Querem trocar a liberdade de costumes pela moral religiosa? Ou a boémia elegante pela vida ao ar livre?"

Nada disso, só querem mesmo casar-se. Se calhar é essa a confusão.

Isto lembrou-me uma sátira que vi há pouco tempo dando 10 razões contra o casamento homossexual.

Foi isto que achei da Atlântico. Desinteressou-me por ser de tão fraca qualidade. Onde estão os artigos sobre direita a sério? Liberalismo puro e duro que torna o estado pequeno e pouco interventivo, não proibindo a droga ou o casamento homossexual, deixando tudo ao mercado. Não concordo com ela mas pelo menos é uma utopia que faz sentido como todas as boas teorias políticas. Esta direita reaccionária e religiosa tem pouco interesse, é enfastiante embora um pouco assustador ver defesas mal amanhadas de preconceitos. Tenho mais que fazer com 4 euros, embora não seja nada tão escandalosamente sórdido como imagina a direita.

Comentários

Nome: cristina
Data: 2006-07-17 21:00:18
Texto:
A minha ignorância política não me permite conhecer a dita revista, por isso falo agora apenas do que aqui dizes.

- "uma voz que faltava na direita portuguesa"
-- A avaliar pelas pérolas que apresentas, é, de facto, uma voz que vai faltando cada vez mais - felizmente! Sim, porque, apesar do senhor do "artigo verdadeirmente assustador" não o achar, o homossexual já vai deixando de ser uma aberração pública e, em particular, o casamento já vai sendo aceite por muitos fora do "lobby". Não vou tão longe como tu para, desde já, pedir meças às maiorias ou minorias, mas para lá caminhamos.

- "Onde estão os artigos sobre direita a sério?"
-- Mais uma vez, na minha ignorância, a visão muito simplista que tenho da direita abrange dois pontos: económico-social e religioso. E ainda que no primeiro a ideia seja de abertura, numa postura pouco interventiva, no segundo domina o enclausuramento, porventura, excessivo. Se há "liberalismo religioso" à direita ou se, ainda que enclausuradas, há desfesas bem amanhadas e sem preconceitos, ouçam-se, então, as vozes - mas será que há?...
Nome: mariny
Data: 2006-07-18 00:21:56
Texto:
LOL! Uma óptima leitura de casa de banho ou então serve muito bem para diminuir as insónias;)
Deu-me um sono!

Além de ser uma compilação de textos sem sal e que demonstram contradição e desnorte ideológico. Sempre os mesmos preconceitos e argumentos que os justificam vergonhosamente, tal é a pobreza intelectual.
Nome: ds
Data: 2007-08-23 07:57:15
Texto:
csd
Nome: ds
Data: 2008-11-02 15:43:16
Texto:
csd
Nome: jhuijk
Data: 2008-11-02 15:43:46
Texto:
merda

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