Desde que comprei a máquina nova ouvi algumas vezes uma frase que me irritou: "Essa máquina tira boas fotos". Primeiro apeteceu-me dizer logo: "Não é a máquina, sou eu". Não disse mas se calhar devia. Não é que eu tenha algum jeito especial, é só que as máquinas fotográficas são objectos inertes, quem tira as fotos são as pessoas.
As máquinas fotográficas que temos, por muito sofisticadas que sejam não possuem qualquer inteligência. Por muita qualidade de imagem que tenham se as apontarmos para o chão, vão tirar uma foto com grande qualidade de imagem... ao chão.
Com o avanço tecnológico a qualidade tem subido muito, principalmente nas de baixa gama. O que isto quer dizer é que a diferença entre uma máquina caríssima com uma lente fantástica e a compacta barata está a reduzir. As máquinas melhores têm algumas vantagens de qualidade mas todas são capazes de tirar más e boas fotos.
Quando comprei a máquina esforcei-me por explorar as possibilidades que tinha. Usei as lentes que o meu pai já tinha. Comprei mais duas. Tornei-me viciado em vigiar leilões de lentes no eBay. Passei a ler compulsivamente forums de discussão sobre equipamento e a saber um montão de pormenores tecnológicos. O que de mais importante me ensinou este conhecimento da tecnologia é que o caminho para as boas fotos não é coleccionar equipamento.
Todas as lentes e máquinas são compromissos tecnológicos. O conhecimento técnico serve para explorar o compromisso a nosso favor. A grande maioria das grandes fotos do século XX foram tiradas com máquinas que em medições objectivas ficariam muito atrás das máquinas baratas de hoje. O que ficava a faltar medir era a qualidade do pedaço de carbono e água por detrás da máquina.
Para uma grande foto não chega uma grande imagem. A resolução, a cor, o contraste, são tudo coisas que são geralmente precisas para fazer grandes fotos. Mas há fotos que não têm nada disto e são das melhores fotos de sempre. As fotos do desembarque na Normandia do fotógrafo Robert Capa foram quase todas destruídas por um erro na revelação. As que sobraram ficaram bastante estragadas. Mesmo assim uma destas fotos tornou-se numa das mais famosas fotos de guerra de todos os tempos.
Muitos dos grandes fotógrafos de sempre não usavam equipamento muito sofisticado. A escolha de equipamento é tão vasta que para se conseguir passar algum tempo a fotografar é preciso escolher equipamento que funcione, aprender as suas limitações e pontos fortes e depois esquecer isso e tratar de tirar fotos. Henri Cartier-Bresson fotografava com uma lente de 50mm e uma Leica. Isto no tempo em que as Leicas eram compactas simples e robustas e não objectos de fetish. E isto chegava. Ainda chega hoje se se quiser fazer este tipo de fotografia. Seja o que for que se queira fotografar, só é preciso equipamento satisfatório. O difícil é o resto.


Data: 2006-01-31 18:55:57
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Data: 2008-07-09 05:00:20
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