Apesar do que às vezes julgamos, todos nós temos uma ideia bastante bem definida de quem somos. No sentido formal sabemos o nosso nome e dados biográficos, no sentido visual sabemos reconhecer a nossa cara e corpo e no sentido interno/espiritual também sabemos quem somos. Vivemos connosco a todas as horas e reconhecemos o nosso tipo de pensamento comparado com o dos outros. A nossa noção de individualidade nasce cedo e a separação entre o eu e o resto torna-se bastante óbvia.
Quando temos crises existenciais perguntamos qualquer coisa do género: "Quem sou eu?". A pergunta é inútil e não leva a nada porque sabemos a resposta. O problema aqui é outro. Não sabemos qual a pergunta que devemos fazer. O conceito de identidade foi subvertido para poder conter tudo e qualquer coisa. Temos "crises de identidade" quando não sabemos o que queremos fazer na vida ou estamos descontentes com o que já fizemos.
Resumir tudo a "identidade" faz com que o conceito deixe de ter valor. Passa a conter tudo o que fizemos, faremos ou queremos fazer. Embora isso possa funcionar para a ideia que os outros têm de nós, para o nosso próprio raciocínio não serve. Estamos a ver as coisas de dentro. Querer discutir coisas específicas a partir do conceito de identidade é como discutir o que é um planeta partindo da pergunta: "O que é o universo?". Poético mas inútil.
Isto acaba por ser o resultado de uma ocorrência mais geral. Muitas vezes é mais difícil descobrir qual é a pergunta que precisamos fazer do que responder-lhe. Refugiamo-nos em perguntas abrangentes que manipulamos de maneira a que não tenham resposta. Feito isso é fácil criar um grande drama em volta de algo que só está embrulhado porque não percebemos o nó que lhe demos.
O caso mais grave deste tipo de problemas é a resposta para a Vida, o Universo e Tudo. Sabemos que a resposta é 42. Só ainda não se descobriu qual é a pergunta.
