Secção: Textos de Opinião

Táxis

É raro o dia em que não ando pelo menos uma vez de táxi. É uma experiência dolorosa. Os táxis não são transportes públicos, são habitações particulares que se mexem e nas quais se intrometem passageiros.

Entrar num táxi em Portugal (especialmente em Lisboa) é ver em primeira mão o que o uso excessivo e fraca manutenção pode fazer a um carro que quando virou táxi já era velho. Falamos geralmente de um Mercedes dos anos 80 com meio milhão de quilómetros percorridos, sujo, com uns bancos de couro já muito roçado, os cintos meios estragados e algumas modificações especiais como um suporte para a caneta e um buraco no assento para o bloco dos recibos. O motor faz um ruído estranho acima das 3500 rotações e o diferencial traseiro está a dois dentes de ter uma falha total e nos atirar a 150 para a berma da A5, ali quem desce a entrar em Lisboa com uma bela vista rodopiante sobre o Casal Ventoso e o aqueduto, alternadamente.

O taxista típico tem 50 anos e fazia outra coisa qualquer antes de ter de se resignar a conduzir um táxi. Durante 12 horas por dia fuma, fala ao telefone, houve rádio e também conduz mal a alta velocidade enquanto insulta o trânsito, os peões e os outros condutores. Ganha à percentagem do taxímetro talvez um pouco mais de 1000€ brutos por mês. Não sei se paga impostos.

Este mercado regulado e de difícil entrada existe aparentemente para garantir o nivelamento por baixo da qualidade. Há limitação tanto nos táxis como nos condutores, imagina-se que para garantir que nada melhor possa substituir a situação que temos agora. Estamos entregues a operadores que rentabilizam vários carros podres 24 horas por dia com condutores por turnos. Se aos 60% do taxímetro tirarmos o preço da má manutenção é bom negócio ter uma destas licenças.

Também há taxistas correctos (alguns) e carros bons (poucos). Conseguir uma destas coisas é como ganhar a pequena lotaria do dia-a-dia. São mais uns minutos de esperança de vida e a sensação de que por momentos batemos uma qualquer jogo perverso que no longo prazo estamos destinados a perder.

A situação que temos é inaceitável. O mercado tem de ser aberto e devidamente regulamentado. Ninguém sofre mais com isto do que os próprios taxistas. São eles que vivem esta situação 12 horas de exploração de cada vez. No entanto são também eles que mais reagem contra alterações ao sector. É mais um problema de não optimização para o máximo global.

Posição do Não

Há várias e variadas posições do não no referendo de Domingo. Algumas destas posições são inconsistentes ou facilmente rebatíveis.

A ilegalidade da prática tal como a lei corrente a define é tão insustentável que nem tribunais, nem a população, nem sequer os próprios movimentos do Não chegam a defender a aplicação real da lei. O resultado disto é um debate inquinado em que a defesa da lei corrente é feita por gente que na realidade não acredita nela e não a aplicaria. Marcelo Rebelo de Sousa é o caso mais visível disto.

Creio que foi mesmo MRS que chegou ao cúmulo de dizer que os apoiantes do Sim tinham tido a jogada de mestre, depois do outro referendo, de fazer com que houvesse julgamentos pela lei existente. Isto supostamente terá causado reacção na opinião pública e favorecido o Sim. Ou seja, os sacanas do Sim aplicaram a lei existente[1], apoiada pelo Não! Isso realmente é desonesto. Os movimentos do Não andam a querer enterrar a cabeça na areia. São contra a despenalização mas nenhum deles é coerente e pede que a lei seja aplicada e vá parar gente à cadeia.

Muitos dos partidários do Não vêm a terreiro dizer que o que é preciso fazer é planeamento familiar ou promover a contracepção. Este argumento é insidioso porque parece querer dizer que os partidários do Sim querem que o aborto se torne num mecanismo normal que os substitui. Não querem. Ninguém é a favor do aborto, só se está a votar a despenalização. O planeamento familiar e a contracepção são coisas que devem ser promovidas de qualquer maneira e são completamente ortogonais à questão referendada.

A posição do Não também é altamente inconsistente em dois pontos muito importantes. Primeiro, como disse Vital Moreira, se o aborto é a morte de um ser humano então temos é de unificar a lei e tornar tudo crime de homicídio. Paralelamente se o aborto deve ser ilegal com o argumento de que se está a tirar uma vida as excepções na lei corrente são insustentáveis[2].

Se vamos argumentar que às dez semanas o feto já é merecedor de protecção como vida humana então não faz sentido que haja uma excepção a esta protecção no caso de ter sido gerado por violação. Todos concordamos que uma violação é uma coisa horrível[3] mas não pode ser justificação para homicídio.

O que mais me impressiona no debate é esta falta de convicção real do Não. Querem que a lei fique na mesma mas não fazem força para que seja aplicada. Dizem que estão nisto pelos valores de protecção da vida, mas se realmente acreditassem nisso não se contentavam com que num papel qualquer dissesse que o aborto é ilegal; estariam a fazer campanha para que houvesse policiamento e condenações; seriam contra as excepções da lei.

O Não está conformado ao estado actual das coisas. Querem que a lei diga que o aborto é ilegal por um sentido moral apenas formal. A lei é só um papel. Se tivessem realmente essa convicção que dizem não lhes chegaria uma lei que não é aplicada.

[1]Não sei se isto aconteceu ou não. Mas se aconteceu é fantástico que só mesmo os apoiantes do Sim e como táctica aplicassem alguma vez esta lei.
[2]Neste ponto a Igreja Católica parece ser consistente ao ser contra as excepções.
[3]Mais uma vez se admite que não há psicopatas entre os leitores.

Referendo do Aborto

Vamos em breve referendar a despenalização do aborto. Creio que não é preciso argumentar que a contracepção é legítima e o homicídio ilegal[1]. O aborto ocorre entre a concepção e o nascimento pelo que algures aqui no meio passamos da legitimidade para a ilegalidade. A diferença entre o Não e o Sim é só uma questão técnica. Argumentam em que ponto começa a vida e daí deduzem até quando (se de todo) deve ser permitido abortar.

O único debate necessário para responder estritamente à pergunta é se a vida começa antes ou depois das dez semanas. Na realidade este debate raramente se faz. Definir em que ponto uma vida pode ser considerada um ser humano é essencialmente uma questão de opinião, não há uma resposta científica para o problema. Por isso o debate do referendo tornou-se antes numa discussão sobre os resultados práticos da lei.

Não tenho uma resposta sobre quando começa a vida. Não sei se as dez semanas são muito ou pouco. Acho é que podemos todos concordar que o objectivo é reduzir o número de abortos. A situação corrente é que o aborto embora ilegal continua a existir clandestinamente e sem condições ou controlo.

Porque não sei ter a certeza quando é que um aborto é um homicídio acho que a única solução viável é tentar reduzir a sua prática e é por isso que defendo a despenalização. Temos que atacar o problema às abertas em vez de nos contentarmos com termos uma prática subterrânea que existe porque vai contra uma lei que ninguém aplica. E se com isso conseguirmos reduzir o número de abortos[2] não vejo como mesmo os apoiantes do Não possam discordar.

[1] Admito que não há nem psicopatas nem padres entre os leitores.

[2] Naturalmente não está provado que tal acontecerá.

Forma como Conteúdo

Os episódios do CSI são um exemplo bastante claro do uso da cor e da filmagem como elementos de primeiro plano, parte da mensagem. Não são só elementos de estilo, entram na história.

Já se faz isto há algum tempo. Lembro-me de reparar nisto pela primeira vez no Traffic. Faz-se há ainda mais tempo com o som. O ritmo sincopado nas cenas de suspense, o riso da audiência nas séries de comédia.

Estes elementos são um desvio do cinema e televisão da representação da realidade. O mundo não tem este tipo de pistas. Ao acrescentar isto, principalmente usando uma linguagem comum a todos está-se a acrescentar um nível de interpretação.

É uma técnica como qualquer outra e há-de ser usada e abusada. Retira impacto aos actores, já que a reacção que a cena é suposto provocar já está codificada nos elementos acessórios. Diminui-nos como espectadores. Deixa de nos ser esperado um nível mínimo de interpretação. Temos as indicações todas do que devemos sentir e é só obedecer.

Não quero com isto dizer que a forma não se pode intrometer no conteúdo. Isto é arte afinal. O que me assusta é que às vezes parece que o conteúdo fica refém e em segundo plano à custa destas muletas.

Sempre tive curiosidade em saber qual seria a reacção se trocássemos a música do suspense com a música do momento romântico ou do ataque alienígena. Fazendo isso também com a imagem produziria uma crítica à nossa dependência destas pistas. O que é algo irónico já que nesta caso a forma seria o conteúdo.

Valor da Vida Humana

Estamos a chegar a mais um aniversário do 11 de Setembro e a televisão está cheia de documentários e notícias. E aqui se vê como damos valores diferentes à vida humana. Não se vêm grandes documentários, não se fala de como mudaram a humanidade, os massacres do Darfur ou do Ruanda. Em qualquer um destes dois casos morreram mais de 100 vezes mais pessoas do que no 11 de Setembro.

Impressiona-nos mais que morram 3 mil pessoas em Nova York do que 800 mil no Ruanda. O ocidente passou séculos a lixar o resto do mundo e agora desde que os massacrados estejam numa zona irrelevante qualquer em África está tudo bem. Gastamos uma percentagem ultra-desequilibrada dos recursos do planeta. Mandamos vir com a desflorestação da Amazónia porque já acabamos com as árvores nos nossos territórios e agora queremos depender das dos outros.

A reacção ao 11 de Setembro inclui a guerra do Iraque que já matou mais de 50 mil civis iraquianos. E por muito que discordemos de Bush o facto de ele e outros como ele serem dirigentes ocidentais é uma falha de todos nós. É tão fácil dividir o bem e o mal sem ver que também nós temos uns fanáticos a dirigir-nos. Com a agravante que os nossos extremistas estão bastante mais bem equipados e são capazes de matar muito mais gente e causar muito mais estragos.

Está na altura de crescermos todos um pouco e admitirmos que muita da culpa do estado em que está o mundo é nossa. Convinha deixarmos de discutir o terrorismo querendo separar o ocidente dos terroristas como se fossem água e azeite. Temos uma história anterior repleta de culpas no cartório pelas condições que criaram o terrorismo. Tivemos uma reacção fantasticamente desproporcionada a alguns pequenos atentados. Reacção essa que só agravará o problema.

Estou convencido que o grande desiquilíbrio que isto revela é o do valor que damos às nossas vidas comparadas com as dos países miseráveis. Temos restrições às importações e à imigração desenhadas para salvaguardar as nossas economias. Mantemos estruturas militares fantásticas que usamos ofensivamente. Derrubamos governos eleitos para trocar por ditadores.

Todo o aparato que é o ocidente isola-o, atrasando o processo complicado e doloroso que vai ser o equilibrar das condições de vida globais. Isto melhora claramente o nosso conforto mas há um preço a pagar. Quanto mais gente descontente e miserável houver no mundo mais extremistas existirão. Quanto mais tentarmos resolver este problema na ofensiva mais extremistas criaremos. Israel é a miserável prova disso.

Não podemos continuar a manter a maioria da população do planeta na miséria e ao mesmo tempo esperar que toda a gente goste de nós. Ou deixamos de lixar os outros ou aceitamos o terrorismo como consequência.

(sem comentários) Comentar

Identidade

Apesar do que às vezes julgamos, todos nós temos uma ideia bastante bem definida de quem somos. No sentido formal sabemos o nosso nome e dados biográficos, no sentido visual sabemos reconhecer a nossa cara e corpo e no sentido interno/espiritual também sabemos quem somos. Vivemos connosco a todas as horas e reconhecemos o nosso tipo de pensamento comparado com o dos outros. A nossa noção de individualidade nasce cedo e a separação entre o eu e o resto torna-se bastante óbvia.

Quando temos crises existenciais perguntamos qualquer coisa do género: "Quem sou eu?". A pergunta é inútil e não leva a nada porque sabemos a resposta. O problema aqui é outro. Não sabemos qual a pergunta que devemos fazer. O conceito de identidade foi subvertido para poder conter tudo e qualquer coisa. Temos "crises de identidade" quando não sabemos o que queremos fazer na vida ou estamos descontentes com o que já fizemos.

Resumir tudo a "identidade" faz com que o conceito deixe de ter valor. Passa a conter tudo o que fizemos, faremos ou queremos fazer. Embora isso possa funcionar para a ideia que os outros têm de nós, para o nosso próprio raciocínio não serve. Estamos a ver as coisas de dentro. Querer discutir coisas específicas a partir do conceito de identidade é como discutir o que é um planeta partindo da pergunta: "O que é o universo?". Poético mas inútil.

Isto acaba por ser o resultado de uma ocorrência mais geral. Muitas vezes é mais difícil descobrir qual é a pergunta que precisamos fazer do que responder-lhe. Refugiamo-nos em perguntas abrangentes que manipulamos de maneira a que não tenham resposta. Feito isso é fácil criar um grande drama em volta de algo que só está embrulhado porque não percebemos o nó que lhe demos.

O caso mais grave deste tipo de problemas é a resposta para a Vida, o Universo e Tudo. Sabemos que a resposta é 42. Só ainda não se descobriu qual é a pergunta.

(sem comentários) Comentar

Pensamento Crítico

Muitas vezes conseguimos ser pouco críticos de alguma coisa quando vai a favor de algo em que acreditamos ou de algum dos nossos preconceitos. É fácil notar isso na forma selectiva como reagimos a notícias ou como temos a tendência a não apontar falhas no raciocínio de alguém que está a dizer algo com que concordamos.

Um exemplo disto que sempre achei interessante é quando me dizem que uma dada substância é melhor que outra porque é natural em vez de artificial. Quando pergunto porquê invariavelmente recebo a resposta de que "não tem químicos" ou coisa parecida. Respondo que tudo no mundo é composto por elementos químicos e recebo em troca um olhar aborrecido ou resposta abrasiva que quer dizer que eu estou só a ser chato e que sei muito bem o que se quer dizer. Até hoje nunca percebi.

A maioria das plantas que praí anda não nos fazem bem nenhum. A tendência evolucional é bem a contrária, a de defender dos predadores. Se virmos a lista dos piores venenos conhecidos, muitos deles são perfeitamente naturais. Os cientistas tiveram de se esforçar muito para conseguirem criar venenos tão eficazes como os da natureza. A nossa habituação ao meio depende muito de conseguirmos separar o que nos faz bem do que faz mal. É provavelmente por isso que temos gosto.

O desenvolvimento industrial e tecnológico existe porque queremos melhorar a nossa qualidade de vida. E resultou. Nunca vivemos tão saudáveis nem tanto tempo como hoje em dia. Rejeitá-lo como um todo parece pouco sensato e caso a caso só faz sentido com estudos em vez de preconceitos.

Tenho Estilo

Não, não me visto bem, nem tenho um bom corte de cabelo, nem nada do género. Reparei é que tenho um estilo definido a fotografar. Não sei se é bom ou mau, mas parece ser meu.

Estava numa festa há uns tempos e um amigo tinha uma máquina igual à minha com uma lente que também tenho. Roubei-lha por momentos e tirei umas fotos. Estávamos sentados em duas cadeiras seguidas, razoavelmente no mesmo sítio em relação às outras pessoas. Tirei três ou quatro fotos e devolvi-lhe a máquina. Uns minutos depois dei uma olhada a algumas e distingui sem dificuldade quais eram as minhas. Não eram melhores nem piores e não eram diferentes por serem de coisas diferentes, eram todas de pessoas.

A mesma máquina, no mesmo sítio com o mesmo motivo. A diferença só podia ser o pedaço de carbono por detrás do aparelho. Enquanto que as fotos dele pareciam realmente as fotos de alguém numa festa, com gente à volta, com contexto, as minhas fotos pareciam mais retratos, enquadrados mais perto, tirando tanto quanto possível tudo o que não fosse a cara da pessoa.

Quando fotografo uma pessoa prefiro fazer isso mesmo, fotografar a pessoa e mais nada. Não é só com pessoas, gosto muito de isolar coisas e de mostrar selectivamente, deixando algo de fora. Numa cena movimentada deito fora o movimento. Adoro o que acontece quando chegamos mais perto.

Não me parece que isto seja uma coincidência. Ando há anos a fazer por me tornar engenheiro. Ambos os meus pais o são. Olho para o mundo e separo-o em partes distintas para análise. Parto do princípio que a complexidade é só aparente e acho que se dividir bem as coisas e olhar para cada uma vai tudo fazer sentido. Quando fotografo o oposto gosto da reacção quando o vejo. Há qualquer coisa errada (alguém devia lavar a loiça). Funciona como uma pequena lembrança de que não podemos controlar tudo.

Na programação isto dá muito jeito. A decomposição é a arma fundamental, a única até, para lidar com problemas grandes. As técnicas todas que se inventam são só maneiras diferentes de decompor, tentando reduzir as dependências entre coisas. Vendo agora isso, é normal que tenha um efeito mais geral no raciocínio. Se é bom ou mau não sei. Eu gosto, mas tenho uma opinião parcial.

Revista Atlântico

Comprei por curiosidade a edição de Julho da revista Atlântico. Diz, num daqueles editoriais assinados que agora são moda, ser uma voz que faltava na direita portuguesa. Impressionou-me principalmente pela fraca qualidade. É composta essencialmente por artigos de opinião razoavelmente bem escritos mas pouco relevantes. Tem um artigo bom, muitos ignoráveis e dois ou três assustadores.

O artigo bom é assinado por João Miranda e é sobre o monopólio do Estado em várias áreas. A saber: saúde, educação, reforma, correios, segurança, construção de estradas, portos e aeroportos. O artigo diverge um pouco, falando essencialmente sobre a regionalização, que na direita se chama descentralização, provavelmente para evitar memórias aterrorizantes de António Guterres. Fala disto e bem. Explica que regionalizar reduziria a distância entre o cidadão e o responsável máximo pelo serviço local, melhorando a sua administração.

Em geral concordei com o artigo, com a ressalva de que isso não tem nada a ver com a privatização da educação e da saúde, sobre a qual discordo. Sendo isto uma revista de direita é preciso apontar que a regionalização foi impedida pela direita por ser a errada e esquecida a seguir quando esteve no poder. É preciso também apontar que não há nada de direita nesta ideia. A não ser que sejamos adeptos da teoria de que tudo quanto é boa gestão é de direita e que a esquerda só sabe fazer economias planeadas e estados monolíticos e ineficientes.

O primeiro dos artigos assustadores (mas pouco) é assinado por António Pires de Lima e é sobre como o CDS está sempre encalhado entre os 4 e 9 por cento de votantes e o que fazer sobre isso. Aponta questões essenciais que o CDS deve tratar para convencer mais dos novos eleitores dando o palpite que a área em que é preciso ajustar mais o discurso é a das liberdades fundamentais. Escreve:

"Também eu sou contra a liberalização do aborto, desconfio dos casamentos "gay" e sou contra a adopção de crianças por homossexuais. Mas um partido humanista que se preze não pode deixar de ser compreensivo para com a generalidade das mulheres que abortam evitando sujeitá-las a humilhações desnecessárias. Um partido não confessional deve ser o primeiro a propor leis de união de facto que garantam aos homossexuais todos os direitos que não firam os direitos dos outros."

Comecemos pelo aborto. O CDS é a favor do aborto ser crime. Acha que quem aborta deve ir parar à cadeia. Vir dizer que apesar disso quer ser "compreensivo" e não sujeitar as mulheres a "humilhações desnecessárias" é pura demagogia. Quanto aos casamentos homossexuais gostaria de saber que direito de terceiros é ferido quando dois homossexuais se casam? Não se explica e suspeito que é só um argumento emocional parecido com o do artigo seguinte.

O artigo verdadeiramente assustador é um grande texto assinado por Pedro Picoito que explica que o casamento homossexual não faz qualquer sentido. Entre outras pérolas, está este argumento explicando porque é que a comparação com a luta pelos direitos das minorias raciais não faz sentido:

"(...)compara coisas incomparáveis. Enquanto Luther King ou Mandela exigiam o fim de leis racistas em nome da igualdade, os homossexuais querem o acesso ao casamento em nome da diferença. Por outras palavras querem que a homossexualidade seja uma fonte de direitos."

Isto parece partir do pressuposto que os homossexuais querem o direito a casar-se para evidenciarem a sua diferença. Pressuposto que não sei de onde vem. Sempre que ouvi falar disso pareceu-me que o que querem é ser tratados da mesma forma que todos os outros. Num universo paralelo em que em Portugal houvesse leis racistas e casamentos homossexuais o argumento inverso funcionaria igualmente mal.

Não acaba aqui a loucura. Explica por referências ao direito do império Romano que a "formalização jurídica do casamento teve sempre o objectivo prioritário de proteger a fragilidade social da mulher e dos filhos". Este deve ser o argumento da tradição. Diz depois:

"Não há qualquer desrespeito por direitos fundamentais a justificar o fim de uma instituição cuja estabilidade interessa a todos, apenas a pressão de um lobby minoritário para mudar a realidade por decreto."

É verdade que o casamento não é um direito fundamental, mas a não discriminação com base no sexo já é. Quanto à estabilidade do casamento não percebo em que é que pode ser abalada por passar a haver casamentos homossexuais. A referência a um lobby minoritário é deliciosa. Primeiro porque diz que é minoritário só porque os homossexuais o são. Eu sou a favor do casamento homossexual sendo heterossexual, como é muito mais gente. Está para se ver se somos a minoria. Depois porque parece indicar que os interesses das minorias são ignoráveis e se devem sujeitar à maioria.

Acaba em beleza explicando que os homossexuais querem o casamento, não para o terem em si mas para o atacarem. Querem destruí-lo. Como? "Se tudo é casamento, nada é casamento - e assim acaba a discriminação." E o que vão fazer a seguir? Exigir a adopção. Explica que dar o casamento ou união de facto só abre o caminho para que a seguir se abra o debate de porque é que uns podem adoptar e outros não. Mas se o autor acha que a adopção por homossexuais não deve ser permitida não deve ter medo de ter que o defender. Dizer que não podem casar por causa disso é estar a misturar estratégia política com direitos das pessoas.

Sai-se depois com este fantástico conjunto de perguntas a que tomei a liberdade de responder:

"Porque razão tentam agora entrar em instituições que sempre denunciaram como repressivas?"

O casamento é repressivo exactamente porque a forma corrente discrimina. Querem entrar nesta "instituição" (heh) porque querem que deixe de ser repressiva. Isto de chamar instituição ao casamento é mais uma estratégia política. Terá capital social, sede, cotas e revista mensal?

"Sentiram de repente o apelo do altar e da boa acção diária?"

Não. Só querem mesmo casar-se, não querem nem a sua religião nem a sua moral. Provavelmente é isso que o assusta.

"Querem trocar a liberdade de costumes pela moral religiosa? Ou a boémia elegante pela vida ao ar livre?"

Nada disso, só querem mesmo casar-se. Se calhar é essa a confusão.

Isto lembrou-me uma sátira que vi há pouco tempo dando 10 razões contra o casamento homossexual.

Foi isto que achei da Atlântico. Desinteressou-me por ser de tão fraca qualidade. Onde estão os artigos sobre direita a sério? Liberalismo puro e duro que torna o estado pequeno e pouco interventivo, não proibindo a droga ou o casamento homossexual, deixando tudo ao mercado. Não concordo com ela mas pelo menos é uma utopia que faz sentido como todas as boas teorias políticas. Esta direita reaccionária e religiosa tem pouco interesse, é enfastiante embora um pouco assustador ver defesas mal amanhadas de preconceitos. Tenho mais que fazer com 4 euros, embora não seja nada tão escandalosamente sórdido como imagina a direita.

Caridade vs. Igualdade Social

O PÚBLICO contém hoje um artigo de opinião de José Miguel Júdice intitulado "Viva o capitalismo!". O ponto essencial é o de que o apoio social é mais eficiente quando feito por privados do que pelo estado. Como suporte a isto cita a Fundação Bill e Melinda Gates e a recente e monumental doação feita por Warren Buffet, ambas iniciativas louváveis. Vai daí diz isto:

Durante décadas - admite-se - imperou o egoísmo social, caricaturado no capitalista de chapéu alto a fumar um enorme charuto. Havia, além disso, um acordo tácito em que se sustentou o chamado "Estado social do século XX". Os cidadãos são tributados (o máximo de imposto possível e o mínimo para não destruir a fonte de cobrança) e com isso pagam à sociedade tudo o que lhes pode ser exigido, podendo daí para a frente dedicar-se a fruir com egoísmo o que sobrar depois de pagar impostos.

Ora, não é de todo política do estado social cobrar o máximo de imposto possível. A ideia é precisamente a contrária. Cobra-se o mínimo possível necessário para sustentar completamente os serviços sociais. Porquê? Porque é mais eficiente. Mas a demagogia não para aí. O socialista quer ainda "fruir com egoísmo" do resto do seu rendimento. Tendo em conta que esse resto é o rendimento líquido depois de providenciar todos os serviços sociais o dizer que é egoísmo gastá-lo é da mais pura má vontade. Frui-se com egoísmo no modelo capitalista em que só dá quem quer.

A luta contra o socialismo tem por isso de ser a demonstração de que, também nas chamadas áreas sociais, os privados são mais eficazes e produtivos na gestão dos sistemas do que o Estado.

Esta é uma questão completamente distinta. Uma coisa é saber de onde vem o dinheiro para financiar os serviços sociais. Se é taxado se doado, como discuti antes. Outra coisa é decidir se a sua gestão é feita pelo estado directamente ou se este contrata privados para o fazer. São coisas independentes.

A abertura à iniciativa privada do ensino, da saúde, da habitação, das pensões de reforma, são realidades que neste século XXI começam a ser aceites de um modo muito amplo no espectro ideológico. Mas continua a dominar a tese de que o sucesso comparado das soluções privadas em relação às públicas resulta do facto de tais iniciativas serem aplicadas aos sectores mais favorecidos e não à generalidade da população

A desigualdade entre os sectores favorecidos e o resto da população dos modelos privatizados não é uma tese, é a realidade. Comparem-se os modelos sociais nórdicos ou canadiano com o Americano e descobre-se que o modelo completamente privado consegue ser mais caro per capita quando deixa completamente a descoberto uma grande percentagem da população.

A criação de instituições oriundas da sociedade civil que sejam bem geridas e que apliquem com sucesso recursos na luta contra a desigualdade social (...) é a melhor forma de demonstrar que o Estado se deve cada vez mais restringir às funções de soberania e afastar-se das áreas em que tem demonstrado apenas delapidação de recursos e fracasso rotundo nos objectivos que constitucional ou legalmente se propõe a atingir.

Ou seja, como a administração portuguesa é incompetente vamos largar tudo e desistir, passando ao modelo social capitalista, do qual não existe nenhum exemplo de sucesso. Se calhar era melhor pôr a nossa administração a funcionar direito e tentar imitar os casos de sucesso que existem. O modelo canadiano de cuidados de saúde é um caso muito interessante. O estado é o único prestador de cuidados para toda a população tratando de subcontratar a entidades privadas. Assim a economia de mercado pode funcionar já que a competição é para contratos de prestação de serviços e não para cada paciente.

Acções como as de Buffet e de Gates (...) farão mais pela liberdade económica e pela sociedade liberal do que dezenas de políticos, centenas de manuais escolares, milhares de debates de ideia. E com isso farão justiça social, ajudando à modernização das sociedades contemporâneas.

Ninguém se queixou das fantásticas doações de Buffet e Gates. Concerteza que farão muito mais pela igualdade social do que a esmagadora maioria dos programas estatais. Porquê? Porque têm muito mais dinheiro! A questão aqui é que a sociedade não pode fazer depender a justiça social das escolhas de privados. Iniciativas destas são de louvar mas têm de vir depois das mais básicas guarantias sociais. E essas só podem ser asseguradas pela sociedade, porque só assim se pode conseguir que sejam iguais para todos.

Note-se que não estou a dizer que temos de manter estatais as nossas escolas e hospitais. O que temos de manter é o compromisso do estado em guarantir igual acesso a estes serviços. Podemos passar para hospitais privados, o que não podemos é passar o pagamento da sociedade para o indivíduo, porque quando fizermos isso os desfavorecidos ficam à mercê da caridade dos outros.

Júdice julga que o socialismo é o que aparece nos cartazes da CGTP, que queremos todos manter o estado gordo e ineficiente. Confunde a questão da gestão pública ou privada dos serviços sociais com a do seu financiamento. Quanto à gestão é preciso encontrar equilíbrios entre o que é directamente do estado e do que é entregue a privados. Mas quanto ao financiamento, e no que toca aos serviços básicos, não há outra solução justa que não o estado.

Este é a grande diferença social entre a direita e a esquerda. A direita acredita na caridade individual. A esquerda acredita na igualdade social que troca a doação individual pela sociedade. Acredita nisto porque percebeu que o modelo social forte é mais eficiente do que a caridade individual. Júdice reza ao altar do grande mito de que tudo funciona melhor quando entregue ao mercado e não vê que a realidade não lhe confirma a ideologia.

[Valid RSS]