Táxis
É raro o dia em que não ando pelo menos uma vez de táxi. É uma experiência dolorosa. Os táxis não são transportes públicos, são habitações particulares que se mexem e nas quais se intrometem passageiros.
Entrar num táxi em Portugal (especialmente em Lisboa) é ver em primeira mão o que o uso excessivo e fraca manutenção pode fazer a um carro que quando virou táxi já era velho. Falamos geralmente de um Mercedes dos anos 80 com meio milhão de quilómetros percorridos, sujo, com uns bancos de couro já muito roçado, os cintos meios estragados e algumas modificações especiais como um suporte para a caneta e um buraco no assento para o bloco dos recibos. O motor faz um ruído estranho acima das 3500 rotações e o diferencial traseiro está a dois dentes de ter uma falha total e nos atirar a 150 para a berma da A5, ali quem desce a entrar em Lisboa com uma bela vista rodopiante sobre o Casal Ventoso e o aqueduto, alternadamente.
O taxista típico tem 50 anos e fazia outra coisa qualquer antes de ter de se resignar a conduzir um táxi. Durante 12 horas por dia fuma, fala ao telefone, houve rádio e também conduz mal a alta velocidade enquanto insulta o trânsito, os peões e os outros condutores. Ganha à percentagem do taxímetro talvez um pouco mais de 1000€ brutos por mês. Não sei se paga impostos.
Este mercado regulado e de difícil entrada existe aparentemente para garantir o nivelamento por baixo da qualidade. Há limitação tanto nos táxis como nos condutores, imagina-se que para garantir que nada melhor possa substituir a situação que temos agora. Estamos entregues a operadores que rentabilizam vários carros podres 24 horas por dia com condutores por turnos. Se aos 60% do taxímetro tirarmos o preço da má manutenção é bom negócio ter uma destas licenças.
Também há taxistas correctos (alguns) e carros bons (poucos). Conseguir uma destas coisas é como ganhar a pequena lotaria do dia-a-dia. São mais uns minutos de esperança de vida e a sensação de que por momentos batemos uma qualquer jogo perverso que no longo prazo estamos destinados a perder.
A situação que temos é inaceitável. O mercado tem de ser aberto e devidamente regulamentado. Ninguém sofre mais com isto do que os próprios taxistas. São eles que vivem esta situação 12 horas de exploração de cada vez. No entanto são também eles que mais reagem contra alterações ao sector. É mais um problema de não optimização para o máximo global.
