Arquivo: Setembro de 2006

Forma como Conteúdo

Os episódios do CSI são um exemplo bastante claro do uso da cor e da filmagem como elementos de primeiro plano, parte da mensagem. Não são só elementos de estilo, entram na história.

Já se faz isto há algum tempo. Lembro-me de reparar nisto pela primeira vez no Traffic. Faz-se há ainda mais tempo com o som. O ritmo sincopado nas cenas de suspense, o riso da audiência nas séries de comédia.

Estes elementos são um desvio do cinema e televisão da representação da realidade. O mundo não tem este tipo de pistas. Ao acrescentar isto, principalmente usando uma linguagem comum a todos está-se a acrescentar um nível de interpretação.

É uma técnica como qualquer outra e há-de ser usada e abusada. Retira impacto aos actores, já que a reacção que a cena é suposto provocar já está codificada nos elementos acessórios. Diminui-nos como espectadores. Deixa de nos ser esperado um nível mínimo de interpretação. Temos as indicações todas do que devemos sentir e é só obedecer.

Não quero com isto dizer que a forma não se pode intrometer no conteúdo. Isto é arte afinal. O que me assusta é que às vezes parece que o conteúdo fica refém e em segundo plano à custa destas muletas.

Sempre tive curiosidade em saber qual seria a reacção se trocássemos a música do suspense com a música do momento romântico ou do ataque alienígena. Fazendo isso também com a imagem produziria uma crítica à nossa dependência destas pistas. O que é algo irónico já que nesta caso a forma seria o conteúdo.

Mahjongg

Hoje enquanto jogava Mahjongg reparei que serve como metáfora para a vida. Há um conjunto de peças para tirar e inicialmente há várias hipóteses de combinações a fazer, que vão sendo menos à medida que o jogo avança. Se não tivermos cuidado chegamos a uma situação em que deixa de haver combinações possíveis porque as peças que precisamos não estão disponíveis.

Como o jogo é baseado em tempo há um conflito entre a estratégia gananciosa de remover o primeiro par que se encontrar e a estratégia de longo prazo de abrir o máximo número de pedras. Como nem todas as peças estão visíveis o jogo não pode ser planeado de início. É preciso aplicar uma heurística que aumente a probabilidade de conseguirmos resolver o jogo.

A vida tem muitas destas componentes. O estado das coisas que conhecemos é incompleto e temos de tomar os pequenos passos a curto prazo tendo em conta os objectivos a longo prazo. Às vezes tomamos uma decisão que parece boa no momento mas que não o é, embora não haja maneira de o saber. Às vezes batemos com a cabeça, tal como no Mahjongg fazemos com que o jogo fique sem solução.

Se é que não deu para perceber, perdi o jogo. Fiz um erro simples no fim que poderia ter evitado. Quanto à vida, ainda ando a tentar.

Diálogo Inter-Religioso

O Papa fez umas declarações consideradas uma ofensa ao Islão. Os islâmicos mais radicais conseguiram mais uma vez fazer figura de urso pela resposta violenta que tiveram, tal como já tinha acontecido com os cartoons de Maomé. Se calhar é melhor pararem de reagir às críticas provando por excesso serem aquilo de que vos acusam.

O que acho fantástico nesta situação é que remete logo para o tema religioso do momento, o diálogo inter-religioso. Querem fazer-nos acreditar que os líderes das religiões que praí andam querem realmente aproximar-se uns dos outros.

Ser de uma religião implica por definição acreditar que os tipos que são das outras estão errados. Para que duas religiões não sejam a mesma em algum ponto têm que discordar. A não ser que estejam a pensar fundir-se podem conversar tudo o que quiserem que no fim vão continuar a ser uns uma coisa e outros outra.

Já estava mais que na altura de se deixarem destas fantuchadas ridículas. Escolheram aceitar como guia de vida textos e profecias de origem duvidosa sem qualquer tipo de prova ou pensamento crítico. Agora vão ter que aceitar que isso torna a vossa posição inflexível para com as crenças (fundadas ou infundadas) dos outros.

Faz todo o sentido que o Papa tenha citado um texto do século XIV, não se sabe escrito por quem, contendo uma posição xenófoba do imperador Bizantino para com o Islão. A religião é mesmo isto. Estavam à espera de quê? Um estudo sociológico recente? Ainda não vi foi o Islão a citar algo igualmente escabroso sobre a Inquisição ou as cruzadas. Isso sim seria diálogo inter-religioso.

Valor da Vida Humana

Estamos a chegar a mais um aniversário do 11 de Setembro e a televisão está cheia de documentários e notícias. E aqui se vê como damos valores diferentes à vida humana. Não se vêm grandes documentários, não se fala de como mudaram a humanidade, os massacres do Darfur ou do Ruanda. Em qualquer um destes dois casos morreram mais de 100 vezes mais pessoas do que no 11 de Setembro.

Impressiona-nos mais que morram 3 mil pessoas em Nova York do que 800 mil no Ruanda. O ocidente passou séculos a lixar o resto do mundo e agora desde que os massacrados estejam numa zona irrelevante qualquer em África está tudo bem. Gastamos uma percentagem ultra-desequilibrada dos recursos do planeta. Mandamos vir com a desflorestação da Amazónia porque já acabamos com as árvores nos nossos territórios e agora queremos depender das dos outros.

A reacção ao 11 de Setembro inclui a guerra do Iraque que já matou mais de 50 mil civis iraquianos. E por muito que discordemos de Bush o facto de ele e outros como ele serem dirigentes ocidentais é uma falha de todos nós. É tão fácil dividir o bem e o mal sem ver que também nós temos uns fanáticos a dirigir-nos. Com a agravante que os nossos extremistas estão bastante mais bem equipados e são capazes de matar muito mais gente e causar muito mais estragos.

Está na altura de crescermos todos um pouco e admitirmos que muita da culpa do estado em que está o mundo é nossa. Convinha deixarmos de discutir o terrorismo querendo separar o ocidente dos terroristas como se fossem água e azeite. Temos uma história anterior repleta de culpas no cartório pelas condições que criaram o terrorismo. Tivemos uma reacção fantasticamente desproporcionada a alguns pequenos atentados. Reacção essa que só agravará o problema.

Estou convencido que o grande desiquilíbrio que isto revela é o do valor que damos às nossas vidas comparadas com as dos países miseráveis. Temos restrições às importações e à imigração desenhadas para salvaguardar as nossas economias. Mantemos estruturas militares fantásticas que usamos ofensivamente. Derrubamos governos eleitos para trocar por ditadores.

Todo o aparato que é o ocidente isola-o, atrasando o processo complicado e doloroso que vai ser o equilibrar das condições de vida globais. Isto melhora claramente o nosso conforto mas há um preço a pagar. Quanto mais gente descontente e miserável houver no mundo mais extremistas existirão. Quanto mais tentarmos resolver este problema na ofensiva mais extremistas criaremos. Israel é a miserável prova disso.

Não podemos continuar a manter a maioria da população do planeta na miséria e ao mesmo tempo esperar que toda a gente goste de nós. Ou deixamos de lixar os outros ou aceitamos o terrorismo como consequência.

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Identidade

Apesar do que às vezes julgamos, todos nós temos uma ideia bastante bem definida de quem somos. No sentido formal sabemos o nosso nome e dados biográficos, no sentido visual sabemos reconhecer a nossa cara e corpo e no sentido interno/espiritual também sabemos quem somos. Vivemos connosco a todas as horas e reconhecemos o nosso tipo de pensamento comparado com o dos outros. A nossa noção de individualidade nasce cedo e a separação entre o eu e o resto torna-se bastante óbvia.

Quando temos crises existenciais perguntamos qualquer coisa do género: "Quem sou eu?". A pergunta é inútil e não leva a nada porque sabemos a resposta. O problema aqui é outro. Não sabemos qual a pergunta que devemos fazer. O conceito de identidade foi subvertido para poder conter tudo e qualquer coisa. Temos "crises de identidade" quando não sabemos o que queremos fazer na vida ou estamos descontentes com o que já fizemos.

Resumir tudo a "identidade" faz com que o conceito deixe de ter valor. Passa a conter tudo o que fizemos, faremos ou queremos fazer. Embora isso possa funcionar para a ideia que os outros têm de nós, para o nosso próprio raciocínio não serve. Estamos a ver as coisas de dentro. Querer discutir coisas específicas a partir do conceito de identidade é como discutir o que é um planeta partindo da pergunta: "O que é o universo?". Poético mas inútil.

Isto acaba por ser o resultado de uma ocorrência mais geral. Muitas vezes é mais difícil descobrir qual é a pergunta que precisamos fazer do que responder-lhe. Refugiamo-nos em perguntas abrangentes que manipulamos de maneira a que não tenham resposta. Feito isso é fácil criar um grande drama em volta de algo que só está embrulhado porque não percebemos o nó que lhe demos.

O caso mais grave deste tipo de problemas é a resposta para a Vida, o Universo e Tudo. Sabemos que a resposta é 42. Só ainda não se descobriu qual é a pergunta.

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