Arquivo: Julho de 2006

Pensamento Crítico

Muitas vezes conseguimos ser pouco críticos de alguma coisa quando vai a favor de algo em que acreditamos ou de algum dos nossos preconceitos. É fácil notar isso na forma selectiva como reagimos a notícias ou como temos a tendência a não apontar falhas no raciocínio de alguém que está a dizer algo com que concordamos.

Um exemplo disto que sempre achei interessante é quando me dizem que uma dada substância é melhor que outra porque é natural em vez de artificial. Quando pergunto porquê invariavelmente recebo a resposta de que "não tem químicos" ou coisa parecida. Respondo que tudo no mundo é composto por elementos químicos e recebo em troca um olhar aborrecido ou resposta abrasiva que quer dizer que eu estou só a ser chato e que sei muito bem o que se quer dizer. Até hoje nunca percebi.

A maioria das plantas que praí anda não nos fazem bem nenhum. A tendência evolucional é bem a contrária, a de defender dos predadores. Se virmos a lista dos piores venenos conhecidos, muitos deles são perfeitamente naturais. Os cientistas tiveram de se esforçar muito para conseguirem criar venenos tão eficazes como os da natureza. A nossa habituação ao meio depende muito de conseguirmos separar o que nos faz bem do que faz mal. É provavelmente por isso que temos gosto.

O desenvolvimento industrial e tecnológico existe porque queremos melhorar a nossa qualidade de vida. E resultou. Nunca vivemos tão saudáveis nem tanto tempo como hoje em dia. Rejeitá-lo como um todo parece pouco sensato e caso a caso só faz sentido com estudos em vez de preconceitos.

Tenho Estilo

Não, não me visto bem, nem tenho um bom corte de cabelo, nem nada do género. Reparei é que tenho um estilo definido a fotografar. Não sei se é bom ou mau, mas parece ser meu.

Estava numa festa há uns tempos e um amigo tinha uma máquina igual à minha com uma lente que também tenho. Roubei-lha por momentos e tirei umas fotos. Estávamos sentados em duas cadeiras seguidas, razoavelmente no mesmo sítio em relação às outras pessoas. Tirei três ou quatro fotos e devolvi-lhe a máquina. Uns minutos depois dei uma olhada a algumas e distingui sem dificuldade quais eram as minhas. Não eram melhores nem piores e não eram diferentes por serem de coisas diferentes, eram todas de pessoas.

A mesma máquina, no mesmo sítio com o mesmo motivo. A diferença só podia ser o pedaço de carbono por detrás do aparelho. Enquanto que as fotos dele pareciam realmente as fotos de alguém numa festa, com gente à volta, com contexto, as minhas fotos pareciam mais retratos, enquadrados mais perto, tirando tanto quanto possível tudo o que não fosse a cara da pessoa.

Quando fotografo uma pessoa prefiro fazer isso mesmo, fotografar a pessoa e mais nada. Não é só com pessoas, gosto muito de isolar coisas e de mostrar selectivamente, deixando algo de fora. Numa cena movimentada deito fora o movimento. Adoro o que acontece quando chegamos mais perto.

Não me parece que isto seja uma coincidência. Ando há anos a fazer por me tornar engenheiro. Ambos os meus pais o são. Olho para o mundo e separo-o em partes distintas para análise. Parto do princípio que a complexidade é só aparente e acho que se dividir bem as coisas e olhar para cada uma vai tudo fazer sentido. Quando fotografo o oposto gosto da reacção quando o vejo. Há qualquer coisa errada (alguém devia lavar a loiça). Funciona como uma pequena lembrança de que não podemos controlar tudo.

Na programação isto dá muito jeito. A decomposição é a arma fundamental, a única até, para lidar com problemas grandes. As técnicas todas que se inventam são só maneiras diferentes de decompor, tentando reduzir as dependências entre coisas. Vendo agora isso, é normal que tenha um efeito mais geral no raciocínio. Se é bom ou mau não sei. Eu gosto, mas tenho uma opinião parcial.

Revista Atlântico

Comprei por curiosidade a edição de Julho da revista Atlântico. Diz, num daqueles editoriais assinados que agora são moda, ser uma voz que faltava na direita portuguesa. Impressionou-me principalmente pela fraca qualidade. É composta essencialmente por artigos de opinião razoavelmente bem escritos mas pouco relevantes. Tem um artigo bom, muitos ignoráveis e dois ou três assustadores.

O artigo bom é assinado por João Miranda e é sobre o monopólio do Estado em várias áreas. A saber: saúde, educação, reforma, correios, segurança, construção de estradas, portos e aeroportos. O artigo diverge um pouco, falando essencialmente sobre a regionalização, que na direita se chama descentralização, provavelmente para evitar memórias aterrorizantes de António Guterres. Fala disto e bem. Explica que regionalizar reduziria a distância entre o cidadão e o responsável máximo pelo serviço local, melhorando a sua administração.

Em geral concordei com o artigo, com a ressalva de que isso não tem nada a ver com a privatização da educação e da saúde, sobre a qual discordo. Sendo isto uma revista de direita é preciso apontar que a regionalização foi impedida pela direita por ser a errada e esquecida a seguir quando esteve no poder. É preciso também apontar que não há nada de direita nesta ideia. A não ser que sejamos adeptos da teoria de que tudo quanto é boa gestão é de direita e que a esquerda só sabe fazer economias planeadas e estados monolíticos e ineficientes.

O primeiro dos artigos assustadores (mas pouco) é assinado por António Pires de Lima e é sobre como o CDS está sempre encalhado entre os 4 e 9 por cento de votantes e o que fazer sobre isso. Aponta questões essenciais que o CDS deve tratar para convencer mais dos novos eleitores dando o palpite que a área em que é preciso ajustar mais o discurso é a das liberdades fundamentais. Escreve:

"Também eu sou contra a liberalização do aborto, desconfio dos casamentos "gay" e sou contra a adopção de crianças por homossexuais. Mas um partido humanista que se preze não pode deixar de ser compreensivo para com a generalidade das mulheres que abortam evitando sujeitá-las a humilhações desnecessárias. Um partido não confessional deve ser o primeiro a propor leis de união de facto que garantam aos homossexuais todos os direitos que não firam os direitos dos outros."

Comecemos pelo aborto. O CDS é a favor do aborto ser crime. Acha que quem aborta deve ir parar à cadeia. Vir dizer que apesar disso quer ser "compreensivo" e não sujeitar as mulheres a "humilhações desnecessárias" é pura demagogia. Quanto aos casamentos homossexuais gostaria de saber que direito de terceiros é ferido quando dois homossexuais se casam? Não se explica e suspeito que é só um argumento emocional parecido com o do artigo seguinte.

O artigo verdadeiramente assustador é um grande texto assinado por Pedro Picoito que explica que o casamento homossexual não faz qualquer sentido. Entre outras pérolas, está este argumento explicando porque é que a comparação com a luta pelos direitos das minorias raciais não faz sentido:

"(...)compara coisas incomparáveis. Enquanto Luther King ou Mandela exigiam o fim de leis racistas em nome da igualdade, os homossexuais querem o acesso ao casamento em nome da diferença. Por outras palavras querem que a homossexualidade seja uma fonte de direitos."

Isto parece partir do pressuposto que os homossexuais querem o direito a casar-se para evidenciarem a sua diferença. Pressuposto que não sei de onde vem. Sempre que ouvi falar disso pareceu-me que o que querem é ser tratados da mesma forma que todos os outros. Num universo paralelo em que em Portugal houvesse leis racistas e casamentos homossexuais o argumento inverso funcionaria igualmente mal.

Não acaba aqui a loucura. Explica por referências ao direito do império Romano que a "formalização jurídica do casamento teve sempre o objectivo prioritário de proteger a fragilidade social da mulher e dos filhos". Este deve ser o argumento da tradição. Diz depois:

"Não há qualquer desrespeito por direitos fundamentais a justificar o fim de uma instituição cuja estabilidade interessa a todos, apenas a pressão de um lobby minoritário para mudar a realidade por decreto."

É verdade que o casamento não é um direito fundamental, mas a não discriminação com base no sexo já é. Quanto à estabilidade do casamento não percebo em que é que pode ser abalada por passar a haver casamentos homossexuais. A referência a um lobby minoritário é deliciosa. Primeiro porque diz que é minoritário só porque os homossexuais o são. Eu sou a favor do casamento homossexual sendo heterossexual, como é muito mais gente. Está para se ver se somos a minoria. Depois porque parece indicar que os interesses das minorias são ignoráveis e se devem sujeitar à maioria.

Acaba em beleza explicando que os homossexuais querem o casamento, não para o terem em si mas para o atacarem. Querem destruí-lo. Como? "Se tudo é casamento, nada é casamento - e assim acaba a discriminação." E o que vão fazer a seguir? Exigir a adopção. Explica que dar o casamento ou união de facto só abre o caminho para que a seguir se abra o debate de porque é que uns podem adoptar e outros não. Mas se o autor acha que a adopção por homossexuais não deve ser permitida não deve ter medo de ter que o defender. Dizer que não podem casar por causa disso é estar a misturar estratégia política com direitos das pessoas.

Sai-se depois com este fantástico conjunto de perguntas a que tomei a liberdade de responder:

"Porque razão tentam agora entrar em instituições que sempre denunciaram como repressivas?"

O casamento é repressivo exactamente porque a forma corrente discrimina. Querem entrar nesta "instituição" (heh) porque querem que deixe de ser repressiva. Isto de chamar instituição ao casamento é mais uma estratégia política. Terá capital social, sede, cotas e revista mensal?

"Sentiram de repente o apelo do altar e da boa acção diária?"

Não. Só querem mesmo casar-se, não querem nem a sua religião nem a sua moral. Provavelmente é isso que o assusta.

"Querem trocar a liberdade de costumes pela moral religiosa? Ou a boémia elegante pela vida ao ar livre?"

Nada disso, só querem mesmo casar-se. Se calhar é essa a confusão.

Isto lembrou-me uma sátira que vi há pouco tempo dando 10 razões contra o casamento homossexual.

Foi isto que achei da Atlântico. Desinteressou-me por ser de tão fraca qualidade. Onde estão os artigos sobre direita a sério? Liberalismo puro e duro que torna o estado pequeno e pouco interventivo, não proibindo a droga ou o casamento homossexual, deixando tudo ao mercado. Não concordo com ela mas pelo menos é uma utopia que faz sentido como todas as boas teorias políticas. Esta direita reaccionária e religiosa tem pouco interesse, é enfastiante embora um pouco assustador ver defesas mal amanhadas de preconceitos. Tenho mais que fazer com 4 euros, embora não seja nada tão escandalosamente sórdido como imagina a direita.

Caridade vs. Igualdade Social

O PÚBLICO contém hoje um artigo de opinião de José Miguel Júdice intitulado "Viva o capitalismo!". O ponto essencial é o de que o apoio social é mais eficiente quando feito por privados do que pelo estado. Como suporte a isto cita a Fundação Bill e Melinda Gates e a recente e monumental doação feita por Warren Buffet, ambas iniciativas louváveis. Vai daí diz isto:

Durante décadas - admite-se - imperou o egoísmo social, caricaturado no capitalista de chapéu alto a fumar um enorme charuto. Havia, além disso, um acordo tácito em que se sustentou o chamado "Estado social do século XX". Os cidadãos são tributados (o máximo de imposto possível e o mínimo para não destruir a fonte de cobrança) e com isso pagam à sociedade tudo o que lhes pode ser exigido, podendo daí para a frente dedicar-se a fruir com egoísmo o que sobrar depois de pagar impostos.

Ora, não é de todo política do estado social cobrar o máximo de imposto possível. A ideia é precisamente a contrária. Cobra-se o mínimo possível necessário para sustentar completamente os serviços sociais. Porquê? Porque é mais eficiente. Mas a demagogia não para aí. O socialista quer ainda "fruir com egoísmo" do resto do seu rendimento. Tendo em conta que esse resto é o rendimento líquido depois de providenciar todos os serviços sociais o dizer que é egoísmo gastá-lo é da mais pura má vontade. Frui-se com egoísmo no modelo capitalista em que só dá quem quer.

A luta contra o socialismo tem por isso de ser a demonstração de que, também nas chamadas áreas sociais, os privados são mais eficazes e produtivos na gestão dos sistemas do que o Estado.

Esta é uma questão completamente distinta. Uma coisa é saber de onde vem o dinheiro para financiar os serviços sociais. Se é taxado se doado, como discuti antes. Outra coisa é decidir se a sua gestão é feita pelo estado directamente ou se este contrata privados para o fazer. São coisas independentes.

A abertura à iniciativa privada do ensino, da saúde, da habitação, das pensões de reforma, são realidades que neste século XXI começam a ser aceites de um modo muito amplo no espectro ideológico. Mas continua a dominar a tese de que o sucesso comparado das soluções privadas em relação às públicas resulta do facto de tais iniciativas serem aplicadas aos sectores mais favorecidos e não à generalidade da população

A desigualdade entre os sectores favorecidos e o resto da população dos modelos privatizados não é uma tese, é a realidade. Comparem-se os modelos sociais nórdicos ou canadiano com o Americano e descobre-se que o modelo completamente privado consegue ser mais caro per capita quando deixa completamente a descoberto uma grande percentagem da população.

A criação de instituições oriundas da sociedade civil que sejam bem geridas e que apliquem com sucesso recursos na luta contra a desigualdade social (...) é a melhor forma de demonstrar que o Estado se deve cada vez mais restringir às funções de soberania e afastar-se das áreas em que tem demonstrado apenas delapidação de recursos e fracasso rotundo nos objectivos que constitucional ou legalmente se propõe a atingir.

Ou seja, como a administração portuguesa é incompetente vamos largar tudo e desistir, passando ao modelo social capitalista, do qual não existe nenhum exemplo de sucesso. Se calhar era melhor pôr a nossa administração a funcionar direito e tentar imitar os casos de sucesso que existem. O modelo canadiano de cuidados de saúde é um caso muito interessante. O estado é o único prestador de cuidados para toda a população tratando de subcontratar a entidades privadas. Assim a economia de mercado pode funcionar já que a competição é para contratos de prestação de serviços e não para cada paciente.

Acções como as de Buffet e de Gates (...) farão mais pela liberdade económica e pela sociedade liberal do que dezenas de políticos, centenas de manuais escolares, milhares de debates de ideia. E com isso farão justiça social, ajudando à modernização das sociedades contemporâneas.

Ninguém se queixou das fantásticas doações de Buffet e Gates. Concerteza que farão muito mais pela igualdade social do que a esmagadora maioria dos programas estatais. Porquê? Porque têm muito mais dinheiro! A questão aqui é que a sociedade não pode fazer depender a justiça social das escolhas de privados. Iniciativas destas são de louvar mas têm de vir depois das mais básicas guarantias sociais. E essas só podem ser asseguradas pela sociedade, porque só assim se pode conseguir que sejam iguais para todos.

Note-se que não estou a dizer que temos de manter estatais as nossas escolas e hospitais. O que temos de manter é o compromisso do estado em guarantir igual acesso a estes serviços. Podemos passar para hospitais privados, o que não podemos é passar o pagamento da sociedade para o indivíduo, porque quando fizermos isso os desfavorecidos ficam à mercê da caridade dos outros.

Júdice julga que o socialismo é o que aparece nos cartazes da CGTP, que queremos todos manter o estado gordo e ineficiente. Confunde a questão da gestão pública ou privada dos serviços sociais com a do seu financiamento. Quanto à gestão é preciso encontrar equilíbrios entre o que é directamente do estado e do que é entregue a privados. Mas quanto ao financiamento, e no que toca aos serviços básicos, não há outra solução justa que não o estado.

Este é a grande diferença social entre a direita e a esquerda. A direita acredita na caridade individual. A esquerda acredita na igualdade social que troca a doação individual pela sociedade. Acredita nisto porque percebeu que o modelo social forte é mais eficiente do que a caridade individual. Júdice reza ao altar do grande mito de que tudo funciona melhor quando entregue ao mercado e não vê que a realidade não lhe confirma a ideologia.

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