Arquivo: Março de 2006

Sentido da Vida

A vida não tem sentido. Existimos por acaso. Não fomos criados por ninguém, nem com nenhuma finalidade. Temos instinto de sobrevivência por simples selecção. As espécies que não o desenvolvem desaparecem.

Todos nós procuramos razões para vivermos e maneiras de sermos felizes. E não há nada de mal nisso. Mas não há nenhuma razão suprema para aqui estarmos. Não fomos postos no mundo com uma missão. Existimos por acaso e temos gana de viver porque se não tivéssemos não estávamos aqui para o constatar.

Contagem Decrescente

Esta semana vou completar o primeiro mês de trabalho. Para comemorar isso resolvi calcular algo que está na mente de grande parte dos trabalhadores. Para me reformar já só faltam:

42 anos
4 meses
13 dias
2 horas
16 minutos
4 segundos

Admiti que a idade da reforma é aos 65 anos e que assim se manterá. Também estou a admitir que a segurança social não dá o berro até lá. É esse o problema com a maioria dos cálculos, as premissas... :)

Escalas Temporais

Estou a estagiar na Torre do Tombo. Tem piada ver a escala e perspectiva com que se trabalha num sítio destes. Um arquivo gigante, cheio de coisas importantes. É engraçado perceber como funcionam estas instituições por detrás.

Hoje tive um momento de compreensão da escala a que isto funciona. Alguém me disse algo do género: "Sim, porque isso já foi feito há séculos". Demorei uns segundos a perceber que o sentido da frase era literal. :)

Espaço Público

Houve alguém que resolveu atulhar a caixa de mensagens de um dos posts com a frase:

1 bot pode estragar um sítio web

Gostava de a trocar pela análoga mas mais grave:

Um taco pode estragar um carro.

É que por muito que pareça engraçado e tecnológico andar a fazer brincadeiras destas, não deixa de ser um acto de vandalismo. Neste caso é pouco grave. Vou ter de apagar uns comentários e decidir qual a solução se isto se repetir. Mas são estes pequenos actos e outros maiores que reduzem a utilidade dos nosso espaços públicos. A caixa de comentários era um espaço público e deixei ao critério de cada um o que lá escrever. Deitei fora um ou dois comentários quando os achei abusivos, mas fora isso esteve em auto-gestão.

Se isto continuar assim vou ter de fazer alguma coisa. Não queria acabar com os comentários de vez. Posso moderá-los e só os mostrar na página depois de os aprovar. Para evitar estes scripts automáticos posso acrescentar um daqueles irritantes: "escreva aqui o que está nesta imagem".

Seja qual for a solução final para o problema perdeu-se tempo e paciência a aturar a brincadeira infantil de alguém. Parece ser característica incontornável do (sub)urbanismo este desvalorizar do que é de todos. As nossas cidades estão cheias de lixo no chão e pinturas nas paredes. Porque é fácil de fazer e impossível de controlar. A Internet adquire esta característica. É tão fácil enchê-la de lixo que até quem seria incapaz de gatafunhar uma parede já faz o equivalente aqui.

O que torna isto especialmente grave na Internet é que ao contrário do meio urbano o seu tamanho não é limitado. Quem sentir a ânsia imparável de se expressar pode fazê-lo sem problemas ou custos. Enquanto que o impulso para fazer uns gatafunhos numa parede pode vir de uma necessidade de afirmação contra a opressão do espaço, isso aqui não existe. Isto estende-se até onde a vista alcança e ainda além. Em vez de se andar a sujar as paredes dos outros, podia gastar-se o esforço a construir algo próprio. Mas não se espera que compreenda isso alguém que veio para vandalizar.

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Gestão do doce e do chicote

Acabei agora a primeira semana de trabalho da minha vida. Daquele trabalho com horário fixo, local atribuído e objectivo em definição. A impressão com que fiquei é que quase toda a gente à minha volta estava ali por não estar num sítio melhor. Trabalha-se para ganhar dinheiro, porque não se arranjou maneira melhor de o fazer.

Este tipo de atitude é resultado da gestão do doce e do chicote. Os empregados são mantidos dentro de certos parâmetros dando-lhes um doce para lhes valer a pena e tendo a ameaça do chicote para os manter na linha.

O sítio onde estou é uma instituição pública e por isso logo se dirá que este tipo de gestão é a do estado. Na realidade a maioria das empresas praticam a mesma. Só mudam os tamanhos dos doces e os feitios dos chicotes.

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Impostos

É hoje manchete do JN que a dívida às finanças é de 17 mil milhões de euros. O que se pode concluir disto é que os impostos em Portugal são demasiado altos. Porque se o estado funciona quando não recolhe esta enorme quantidade de impostos, então é sinal que se todos os impostos fossem pagos eles podiam baixar.

Da próxima vez que virem algum dirigente de alguma associação de empresários a queixar-se de que os impostos são demasiado altos lembrem-se que isso acontece porque os seus associados não os pagam.

O verdadeiro problema aqui é que para se ser uma empresa competitiva em Portugal tem de se fugir aos impostos. Porque senão a empresa ao lado concorre deslealmente ao não pagar IVA, IRC ou Segurança Social. É que nestes 17 mil milhões, não está ainda incluída a dívida à Segurança Social.

Da próxima vez que virem um programa de governo a prometer "reformas estruturais" ou choques disto e daquilo lembrem-se que estamos muito atrás disso. Primeiro é preciso pôr os tribunais e a máquina fiscal a funcionar.

Deambulações Ferroviárias

Fui e vim a Lisboa de comboio e fiquei estupefacto. Fica mais caro fazer a viagem de comboio do que de carro, desde que no carro vão pelo menos duas pessoas. Se forem quatro a diferença é ridícula. O que ou quer dizer que as nossas estradas estão altamente subsidiadas ou que o preço do comboio está altíssimo. Não há razão para um transporte de massas que é mais eficiente tanto em termos de energia como ambientais ser mais caro.

Para além do preço há a velocidade. Gastaram-se milhões e milhões a modernizar a linha do Norte para ter como resultado um comboio que demora menos 20 minutos que o anterior? Isto quando o anterior pára mais vezes? Onde estão os gestores da CP presos por gestão danosa?

O pendular é capaz de 220 km/h, mas só os atinge durante pouco tempo, perto de Aveiro. O resto do tempo arrasta-se a 80 km/h, às vezes menos. Isto porque a linha onde se enterraram tantos milhões não serve. Agora vai-se gastar outro balúrdio a fazer um TGV. Se este comboio andasse à velocidade a que pode não seria preciso. Podia-se fazer uma linha nova para este e gastar menos, mas como a União Europeia nesse caso não financia, não podemos. Não financia porque a linha do pendular conseguíamos contruí-la nós. O TGV é todo encomendado fora e o suposto investimento em Portugal é só miragem.

Portugal vive num estado letárgico. Irrita ver os empresários e políticos a queixarem-se da produtividade e dos funcionários públicos quando é por demais evidente que o problema é de gestão, tanto pública como privada.

Não há memória de um governo que tivesse alguma ideia para o transporte ferroviário em Portugal. O desenvolvimento é sempre em torno de transporte de passageiros e suburbanos. Como se vê no pendular nem este acerta. No entretanto continuamos a abastecer o país de camião. Os países centrais na Europa não fazem isso, metem tudo no comboio. Nós que estamos cá no extremo transportamos tudo de camião para ser mais caro.

Os nossos portos continuam uma desgraça porque, para além de serem mais caros, não têm bons acessos para o resto da Europa. No que é preciso investir e negociar com Espanha é em acessos de comboio de Leixões e Sines até aos Pirinéus, de preferência já com a largura de carril do resto da Europa (a Ibérica é diferente).

Portugal continua a brincar com o dinheiro que lhe vão dando. É o adolescente que quer ficar em casa dos pais Europeus para sempre. E de todo este suposto investimento não sai nada. O TGV para Madrid deve ser para podermos ir todos a correr prestar vassalagem aos donos Espanhóis da nossa economia, que é para não dizer do nosso futuro.

Manhattan

Image from Manhattan

Não sou particular fã do Woody Allen mas gostei muito de ver o Manhattan no outro dia. Tem bom enredo e muito boa fotografia. Adorei ver como um filme a preto e branco pode parecer (e ser) tão moderno.

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