Arquivo: Janeiro de 2006

Máquinas e Fotógrafos

Desde que comprei a máquina nova ouvi algumas vezes uma frase que me irritou: "Essa máquina tira boas fotos". Primeiro apeteceu-me dizer logo: "Não é a máquina, sou eu". Não disse mas se calhar devia. Não é que eu tenha algum jeito especial, é só que as máquinas fotográficas são objectos inertes, quem tira as fotos são as pessoas.

As máquinas fotográficas que temos, por muito sofisticadas que sejam não possuem qualquer inteligência. Por muita qualidade de imagem que tenham se as apontarmos para o chão, vão tirar uma foto com grande qualidade de imagem... ao chão.

Com o avanço tecnológico a qualidade tem subido muito, principalmente nas de baixa gama. O que isto quer dizer é que a diferença entre uma máquina caríssima com uma lente fantástica e a compacta barata está a reduzir. As máquinas melhores têm algumas vantagens de qualidade mas todas são capazes de tirar más e boas fotos.

Quando comprei a máquina esforcei-me por explorar as possibilidades que tinha. Usei as lentes que o meu pai já tinha. Comprei mais duas. Tornei-me viciado em vigiar leilões de lentes no eBay. Passei a ler compulsivamente forums de discussão sobre equipamento e a saber um montão de pormenores tecnológicos. O que de mais importante me ensinou este conhecimento da tecnologia é que o caminho para as boas fotos não é coleccionar equipamento.

Todas as lentes e máquinas são compromissos tecnológicos. O conhecimento técnico serve para explorar o compromisso a nosso favor. A grande maioria das grandes fotos do século XX foram tiradas com máquinas que em medições objectivas ficariam muito atrás das máquinas baratas de hoje. O que ficava a faltar medir era a qualidade do pedaço de carbono e água por detrás da máquina.

Desembarque na Normandia
Robert Capa, Desembarque na Normandia

Para uma grande foto não chega uma grande imagem. A resolução, a cor, o contraste, são tudo coisas que são geralmente precisas para fazer grandes fotos. Mas há fotos que não têm nada disto e são das melhores fotos de sempre. As fotos do desembarque na Normandia do fotógrafo Robert Capa foram quase todas destruídas por um erro na revelação. As que sobraram ficaram bastante estragadas. Mesmo assim uma destas fotos tornou-se numa das mais famosas fotos de guerra de todos os tempos.

Muitos dos grandes fotógrafos de sempre não usavam equipamento muito sofisticado. A escolha de equipamento é tão vasta que para se conseguir passar algum tempo a fotografar é preciso escolher equipamento que funcione, aprender as suas limitações e pontos fortes e depois esquecer isso e tratar de tirar fotos. Henri Cartier-Bresson fotografava com uma lente de 50mm e uma Leica. Isto no tempo em que as Leicas eram compactas simples e robustas e não objectos de fetish. E isto chegava. Ainda chega hoje se se quiser fazer este tipo de fotografia. Seja o que for que se queira fotografar, só é preciso equipamento satisfatório. O difícil é o resto.

Noite de Discoteca

Noite na discoteca é estar consciente mas solto. Consciente da magnitude da hipocrisia e da profunda falta de sentido de tudo o que se passa. Solto de achar que isso é mais ou menos do que qualquer outra situação em qualquer outro momento. É uma liberdade conformada e por isso verdadeira. É a segurança serena de sabermos que isto ou qualquer outra coisa redundam no mesmo e não são nada.

50,05%

50,05% seria a percentagem de vitória de Cavaco Silva se a constituição dissesse o que devia dizer e contasse os brancos para apuramento de maioria absoluta. Nesta eleição não chegou para fazer a diferença, mas foi só por 2770 votos.

Declaração de Voto

Votei num destes cromos só porque alguém teve a ideia peregrina de ignorar os votos brancos para determinar se um dos candidatos teve maioria absoluta. Um voto branco é um voto expresso, não é nulo e devia ser contado.

Não votaria em branco só por não querer que o Cavaco ganhasse à primeira. Votaria em branco porque não queria que ganhasse ninguém. O que a contagem dos votos brancos permitiria era isso, que ninguém ganhasse mesmo na segunda volta. Isso não seria um defeito do sistema. Se nenhum candidato consegue uma maioria, não ganha ninguém e repete-se a eleição do início.

Google Talk

Google Talk

Já imaginaram o que seria se 10 empresas diferentes tivessem 10 serviços diferentes de e-mail ou 10 versões diferentes da Web? Já imaginaram o que seria se para cada uma dessas versões diferentes tivesse de ter uma conta diferente? Não precisa de imaginar, basta ver o que acontece hoje em dia com os serviços de Instant Messaging. Há o Messenger, o AIM, o Yahoo e mais alguns. Para falar com pessoas de cada rede é preciso ter uma conta em cada.

Todos os serviços comerciais que existem são fechados, sendo o protocolo que usam secreto. Há clientes para estes serviços feitos por terceiros porque alguém se deu ao trabalho de perceber como funcionam estes protocolos. Há no entanto um protocolo aberto, bem definido, e com muito mais potencial que todos estes, o XMPP em que se baseia o Jabber.

Até há bem pouco tempo o Jabber era muito usado para comunicação dentro de empresas ou organizações mas pouco usado por utilizadores privados. Isso mudou agora que a Google lançou o seu Google Talk. Este cliente liga-se aos servidores da Google mas fala o tal protocolo aberto. Desde ontem que os servidores da Google passaram a estar ligados à rede global que fala este protocolo.

Pela primeira vez, há uma alternativa ao Messenger/AIM/Yahoo em que toda a gente pode brincar, não sendo controlado por uma só empresa. O cliente da Google é gratuito e segundo me dizem bastante bom. Façam download e instalem. É preciso uma conta no Gmail para usar este serviço. Se não tiver uma, mande-me um e-mail que eu envio um convite.

Depois de terem o Google Talk instalado, e para que não pareça que não têm ninguém com quem falar, podem acrescentar o meu contacto (pedrocr@gmail.com). Falem com os vossos amigos para também se juntarem ao serviço.

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Hábitos de condução

Há alguns hábitos de condução que me fazem regredir a desejos mais primários e lançar insultos para os condutores em causa:

  • Parece agora ser moda usar o pisca como querendo dizer: "Olha que giro, não estavas a contar mas virei à direita/esquerda". O pisca serve para dizer aos outros condutores que se vai mudar de direcção. Usá-lo depois de já o ter feito é perfeitamente redundante e não serve para nada. Não o fazer de todo é perigoso.
  • Para sair de uma rotunda é preciso estar na faixa da direita. Quem está nas faixas do centro não tem prioridade alguma sobre os que estão na da direita. Para sair da rotunda vindo de uma das faixas centrais tem de cruzar a faixa da direita. Ao fazer isto vem da esquerda e nunca teria prioridade porque está a mudar de faixa. Parece haver muita gente que admite que lá porque estou na faixa da direita da rotunda vou sair e quando não o faço buzina.
  • Às vezes não parece mas em Portugal conduz-se pela direita. Sempre que haja a hipótese de circular por uma faixa mais à direita isso é obrigatório. Isto aplica-se principalmente às auto-estradas de três e mais faixas onde por alguma razão insondável há quem conduza por uma das do meio quando as faixas à direita estão vazias. Estou farto de estar a conduzir na auto-estrada na faixa da direita e ter de cruzar duas faixas para a esquerda e de volta porque alguém resolveu colocar-se bem no meio da estrada. Se estão com medo de não conseguir manter o carro dentro da estrada não deviam estar a conduzir de todo.
  • Não se avança para um cruzamento quando este está parado para que não se fique a impedir os carros que querem cruzar. Isto aplica-se a cruzamentos com e sem o zebrado amarelo no chão.
  • A distância de segurança é um conceito muito importante da condução. Se estou numa auto-estrada a ultrapassar alguém não é seguro fazê-lo colado ao carro da frente ou ter um carro colado atrás de mim. Da mesma forma não é seguro retomar a faixa da direita imediatamente a ultrapassar o carro porque também tenho de manter a distância de segurança para o carro ultrapassado. Mandar-me máximos não apressará a minha ultrapassagem e garantirá que não farei o favor de sair da frente o mais rápido possível. Em vez disso ultrapassarei todos os carros que me apetecer e fá-lo-ei à velocidade que mais me convier. Pode até acontecer que me apeteça fazer a manobra muito mais devagar do que originalmente tinha planeado...
  • Os faróis de nevoeiro são, imagine-se, para usar quando está nevoeiro. Eu sei que gastou muito para ter esse extra no seu carro e é raro poder usá-lo com tanta falta de nevoeiro que há em Portugal. É uma infracção grave e torna mais fácil encandear um carro que venha em sentido contrário. Deixo uma cara de espanto especial para aqueles que acham boa ideia andar de mínimos e faróis de nevoeiro. Para além da sua visibilidade ser reduzida, já que os faróis de nevoeiro atiram baixo e para os lados, torna mais difícil a visibilidade pelos outros o que aumenta a possibilidade de alguém se espetar de frente contra um destes criativos do volante.

Encomendas

O estado português resolveu cobrar IVA e sabe-se lá mais oquê numa lente que comprei em segunda mão no eBay americano. Quando vieram trazer a encomenda a casa era preciso pagar isso. Não tinha dinheiro comigo, nem o estafeta tinha maneira de receber com multibanco (aceitável), nem podia esperar que eu fosse levantar à máquina mais próxima (perfeitamente compreensível).

Fui levantar a encomenda um pouco mais tarde à estação de correios mais próxima. O que não é de todo aceitável ou compreensível é que numa estação de correios não se possa pagar com cartão. Dinheiro ou cheque é tudo quanto aceitam.

Fotos novas

Não tenho escrito muito aqui mas tenho tirado umas fotos. Fui a uma entrevista para um estágio e aproveitei para acrescentar uma categoria com fotos de Coimbra. Comprei um brinquedo novo e consegui que me deixassem entrar com ele no estádio do Dragão para ver o Porto contra o Boavista. Comprei lugares na quarta fila a contar do relvado e ainda tirei umas fotos engraçadas, incluindo uma do Quaresma e outra do golo. Ao intervalo veio um tipo dizer que não podia tirar fotos...

Homens vs. Mulheres

Adoro este tipo de anedotas. Não sei quem gosta mais de promover esta ideia que as mulheres são imensamente complicadas e os homens simples. Conheço-os de todos os tipos e não sei dizer qual é a verdadeira distribuição.

Como não resisto a acrescentar uma opinião infundada à discussão diria que esta ideia vem do facto de quando as mulheres actuam irracionalmente a conclusão é: "é mulher, é natural". Quando um homem actua irracionalmente a conclusão é: "está a actuar irracionalmente". Antes que me digam que isto são coisas ditas só por homens, já as ouvi de homens e mulheres.

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Bond, James Bond

Comecei o ano a recuperar da festa vendo televisão. Estava a dar um filme do James Bond e achei que seria entretenimento simples e eficaz. Eu até vi o filme mas fiquei bastante desiludido.

Estes filmes são sempre iguais. Há o herói a lutar contra um vilão megalómano e a divertir-se com, creio que sempre, duas mulheres. Os vilões são sempre megalómanos e ridiculamente ineficientes. O herói é sempre Bond, James Bond, querendo isto dizer que por muito improvável que seja safa-se sempre e salva sempre o dia. As mulheres são sempre fáceis e descartáveis. O enredo não chega a existir, há um monte de peripécias ou altamente improváveis ou simplesmente estúpidas.

Dir-se-ia que Bond é o estereótipo do filme de acção. O que sai acaba por ser irritante. Irrita porque dá munições a quem acha que filme de acção é sinónimo de mau e de cinema que não interessa. Estes realmente não interessam mas um filme de acção bem feito tem todo o lugar no cinema.

A imagem em movimento é altamente aproveitável num filme de acção. Os dramas têm de se comparar não com outros filmes do género mas com o volume enorme de romances que foram escritos nos últimos séculos. Embora a imagem possa ser muito bem aproveitada, a concorrência é forte. O filme de acção é quase um exclusivo do cinema e há-os muito bons. É engraçado que se cataloguem as pessoas que gostam de filmes de acção como tendo mentes fechadas. Tem a mente fechada quem não percebe que a "acção" é algo fundamental no cinema.

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