Arquivo: 2006

Casino Royale

Fui ver o último 007 e é um bom filme. Ou melhor, é um bom 007. Há filmes de acção melhores e histórias de amor bem melhores. Daniel Craig faz um bom papel, mais moderno e simples mas menos polido que Pierce Brosnan ou o ainda rei Sean Connery. No próximo filme provavelmente melhorará.

Eva Green moderniza ainda mais a Bond Girl tirando ao conceito mais um bocado do seu lado misógino (ainda sobra bastante). Mads Mikkelsen faz um vilão competente embora seja uma figura menor que o costume. Talvez seja o 007 menos monumental o que é natural já que representa o começo do personagem.

O mito da série 007 acaba por ser maior que a realidade. São uns filmes que entretêm e que ultimamente têm sido visualmente muito ricos. Quando olhamos para trás vemos que não se transformam em grandes clássicos. São porreiros para ver numa tarde de Domingo.

Perspectiva

Perspectiva. É por isso que o único jornal que leio é o Inimigo Público. Desta vez é o Scott Adams:

I also wonder what the Muslims think of this man of peace who carries a scepter featuring a bearded Middle Eastern guy nailed to a cross. I’m no expert in body language and dressing for success, but I have to think it’s wise to hide your torture-themed novelty toys when you’re pursuing world peace.

(...)

Anyway, I know I feel more comfortable with the Pope in Turkey. When it comes to handling delicate matters affecting the survival of the planet, you want to send in the 79-year old German guy with a Marge Simpson hat, a history of talking directly to God, and seven decades of sperm backup. I don’t see how that could go wrong.

Desafio a quadrilha de comentadores políticos que praí andam a fazer um comentário mais pungente e correcto sobre a visita do Papa à Turquia. Nem o Nuno Rogeiro conseguirá. E não, não estou a gozar.

Geek

Ontem, como parte do esforço para arrumar o meu quarto dei banho aos meus legos que estão agora mais uma vez a servir de decoração no topo da estante. Sou um geek e orgulho-me disso.

O modelo do vaivém espacial tem umas fibras ópticas que simulam o funcionamento dos motores, as portas do porão abrem e de dentro sai um satélite preso a um guindaste. Tudo isto é controlado electricamente.

O modelo do carro tem suspensões independentes às quatro rodas, um motor V8 em que se podem ver os pistões a andar, diferenciais nos dois eixos, um diferencial central para tracção às quatro, uma caixa de velocidades com quatro relações que funciona verdadeiramente e um sistema de direcção que move as quatro rodas.

Aqueles dinamarqueses são levados da breca.

Instrumento Anti-Social

Um Ipod Shuffle
Anti-socialidade concentrada

Basta encher com um conjunto de músicas que gostamos, meter em aleatório e sair à rua. O que se passa à volta passa a ser pano de fundo para uma banda sonora. É como viver dentro de um videoclip.

Mais uma vez se prova que não há oportunidade de interacção social que a tecnologia não seja capaz de resolver.

Amar

Amar-te não foi um erro nem um momento de loucura. Nem sequer foi o sonho de completar algo que faltava. Amar-te aconteceu e quando acabou não era felicidade nem dor, só a certeza de saber que algo tinha acontecido e uma vaga memória de te ver passar. Como um aguaceiro deixou um cheiro húmido e pesado no ar que tanto acalma como inquieta um corpo a que o repouso faz falta.

Presidente da República Lisboeta

O nosso presidente viu um museu da Língua Portuguesa no Brasil e gostou muito. Gostou tanto que até comentou que achava que também devíamos ter um em Lisboa...

Votação Electrónica Inevitável?

As últimas eleições para presidente do Benfica foram realizadas usando um sistema de votação electrónica. A RTP fez uma fantástica reportagem/spot publicitário em que entrevista os fabricantes do equipamento e mostra como a votação vai funcionar. Puro marketing.

Mas o ponto mirabolante foi a entrevista ao representante da Comissão Nacional de Eleições que explicou que estavam a seguir o processo mas que cabia ao legislador decidir quando introduzir a votação electrónica nas eleições da República. Pelos vistos a votação electrónica é agora só uma questão de tempo.

Já afirmei antes que a votação electrónica é uma perigosa estupidez. Nem o representante da CNE nem o da empresa que vende o equipamento explicaram qual é a vantagem significativa em votar electronicamente. Já é mau andar a inventar soluções para problemas que não existem, mas este caso é especialmente escandaloso. A suposta solução é muito pior do que o que temos agora no requisito fundamental de um sistema de votação, fiabilidade dos resultados.

Cinema recente

Fui ver três filmes recentemente:

  • The Black Dahlia - Dos piores filmes que já alguma vez vi. A prova de que começando com um mau argumento se consegue fazer um mau filme. Se é que era preciso provar isso. A ideia geral não é má mas o filme acaba por não passar de uma sequência de cenas desconexas e estranhas. No fim lá explicam tudo e faz sentido mas não tem graça nenhuma.
  • Lucky Number Slevin - Tem o Josh Hartnett num dos papeis principais tal como o anterior e embora a personagem fosse completamente diferente ele consegue interpretá-la com a mesma cara de jogar póquer. A diferença é que neste filme isso faz sentido. Também é um filme de suspense/intriga e só fica tudo explicado no fim. A diferença é que ao longo do filme não ficamos com a noção que estamos a assistir a um monte de coisas irrelevantes e no fim não ficamos indiferentes ao desfecho.
  • Héctor - Mais um filme espanhol de grande qualidade. Também gostava que tivéssemos uma indústria de cinema tão viva. Por não ter grande orçamento não tem o requinte visual dos dois anteriores o que só torna mais evidente como está bem feito. Tem boas actuações e é passado num mundo que nos parece familiar e real. No fim ficamos com a certeza de que nos disse alguma coisa. O Lucky Number Slevin é muito entretenimento e pouca mensagem e o The Black Dahlia parece primeiro evitar a todo o custo fazer sentido para no fim não dizer nada.

A impressão com que fico ao contrastar o cinema de grande orçamento com o de baixo é que ganha muito em visual para depois perder em conteúdo. Faz sentido. Quando se investe tanto num filme é preciso tentar garantir o retorno e por isso é difícil ser-se arrojado. O cinema espanhol parece conseguir ter dinheiro suficiente para fazer bons filmes sem se tornar numa indústria gananciosa. É claro que o que isto quer dizer é que devemos continuar a vê-lo mas não demais. Se lhes damos muito mais dinheiro vai-se tudo. :)

Futebol no Estádio

Ontem fui ver o Porto a Braga. O Porto perdeu mas não foi isso que me chateou mais. Na época passada fui ver o Porto à Luz e é sempre igual. Embora se chegue a horas, a polícia consegue sempre demorar tempo suficiente para que se perca o primeiro quarto de hora do jogo. A parte do jogo que se consegue ver é passada de pé e no caso da Luz numa bancada onde não cabiam as pessoas que lá estavam. A claque e os que os rodeiam passam o tempo a mandar insultos aos adversários, incluindo o já tradicional insulto ao Benfica depois dos golos do Porto...

No fim do jogo é preciso esperar entre meia e uma hora para poder sair do estádio. Isto porque as claques de futebol são tão arruaceiras que não podem ser deixadas à solta junto da população em geral. Fica a bancada toda retida dentro do estádio, algo que só pode ser completamente ilegal. Parte desse tempo é passado a insultar os adeptos da outra equipa que se estão a ir embora.

A partir de agora só vou ver jogos de futebol na bancada central do Dragão. Já tinha concluído isso depois do jogo na Luz mas achei que em Braga seria diferente. Erro meu que não volta a acontecer. Depois perguntem-se porque é que ninguém vê jogos de futebol. Pode ser que este tipo de experiência valha 12,5€ (25 no caso da Luz) para alguém, mas esse alguém não sou eu.

Forma como Conteúdo

Os episódios do CSI são um exemplo bastante claro do uso da cor e da filmagem como elementos de primeiro plano, parte da mensagem. Não são só elementos de estilo, entram na história.

Já se faz isto há algum tempo. Lembro-me de reparar nisto pela primeira vez no Traffic. Faz-se há ainda mais tempo com o som. O ritmo sincopado nas cenas de suspense, o riso da audiência nas séries de comédia.

Estes elementos são um desvio do cinema e televisão da representação da realidade. O mundo não tem este tipo de pistas. Ao acrescentar isto, principalmente usando uma linguagem comum a todos está-se a acrescentar um nível de interpretação.

É uma técnica como qualquer outra e há-de ser usada e abusada. Retira impacto aos actores, já que a reacção que a cena é suposto provocar já está codificada nos elementos acessórios. Diminui-nos como espectadores. Deixa de nos ser esperado um nível mínimo de interpretação. Temos as indicações todas do que devemos sentir e é só obedecer.

Não quero com isto dizer que a forma não se pode intrometer no conteúdo. Isto é arte afinal. O que me assusta é que às vezes parece que o conteúdo fica refém e em segundo plano à custa destas muletas.

Sempre tive curiosidade em saber qual seria a reacção se trocássemos a música do suspense com a música do momento romântico ou do ataque alienígena. Fazendo isso também com a imagem produziria uma crítica à nossa dependência destas pistas. O que é algo irónico já que nesta caso a forma seria o conteúdo.

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