Arquivo: Novembro de 2005

Publicidade Sueca

Eu não costumo ver televisão por cá mas de vez em quando lá perco algum tempo em frente ao aparelho. Há dois anúncios distintos que eu tenho quase a certeza que foram filmados em Portugal. Um mostra o antigo campo central (agora centralito acho) do Estádio Nacional, onde se joga o Estoril Open. Outro um bairro qualquer que pelo aspecto das casas e dos carros me pareceu um bairro qualquer, provavelmente em Lisboa ou periferia.

Deve ter havido alguma agência de publicidade portuguesa que arranjou um contracto qualquer para fazer anúncios para a televisão sueca. Não deixa de ser estranho ver o centralito cheio de bandeiras suecas.

Mais engraçado foi um anúncio que vi hoje. Diz qualquer coisa do género:

"Graças à AXA os meus avós conseguiram uma reforma choruda e foram viver para um sítio mais quente e solarengo onde fazem o seu próprio vinho."

Este mesmo anúncio em Portugal seria antes:

"Graças à AXA os meus avós conseguiram uma reforma choruda e deixaram de precisar de fazer vinho lá na quinta."

Só nos faz falta o que não temos mas pelo menos o desejo da reforma choruda é constante.

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Momento de estupidez

Hoje passou o dia todo a nevar. Quando saí de casa à noite achei que os suecos tinham mesmo tudo muito bem planeado. Começa a nevar e aumentam a iluminação para que as pessoas não tropecem. Demorou-me um bocado a perceber que a iluminação era a mesma mas que como estava tudo branco eu via mais luz.

Fotografia Digital

Já passaram 3 meses, quase 2000 premires do botão e 15GB de fotos desde que tive a minha nova paixão. Agora que já a conheço melhor está na altura de escrever alguma coisa.

Antes da Minolta 5D usava uma Ixus 40. As diferenças são grandes e claro que não trocava de volta mas as máquinas pequenas também têm vantagens. A que mais diferença me faz é que antes tirar uma foto era algo normal que pouca gente notava. Agora, muitas vezes, trazer a máquina à cara altera a própria cena por trazer muita atenção e comentários. Paciência.

As grandes vantagens que notei no digital foram:

  • A conveniência de ter as fotos disponíveis no computador horas ou minutos depois de as tirar e sem precisar de ir a algum lado levar um rolo e pensar que é desta que vão perder aquela foto porreira que tirei hoje.
  • Descobrir rapidamente que a foto porreira que acabei de tirar afinal está desfocada, sobre-exposta e tremida. Tirar outra foto, corrigir duas destas coisas, repetir até ficar bem. Neste ponto descubro que tenho uma foto focada, bem exposta e nada tremida mas que não deixa de ser uma má foto. Descubro tudo isto em 5 minutos e é experiência que conta para a próxima.

Por outro lado há desvantagens:

  • A coisa mais ouvida depois de se tirar uma foto a alguém é: "É digital? Deixa ver!". Se eu fosse um tipo social sabia aproveitar-me disto, como não sou...
  • A gama dinâmica dos sensores digitais é menor que a das películas tradicionais, principalmente do slide mas também do negativo. O que isto quer dizer é que é mais difícil capturar cenas de grande contraste de luz forte e sombra, como o pôr-do-sol. O facto de se poder ver logo a foto ajuda mas não deixa de ser mais difícil.
  • Os sensores digitais são muito sensíveis a sobre-exposição, produzindo zonas completamente brancas e contornos coloridos (púrpura geralmente). Isto deve-se à mais reduzida gama dinâmica mas também ao facto de que o negativo é muito pouco sensível a sobre-exposição. Vi referido que se pode sobre-expor um negativo 5 stops, ou seja 32 vezes mais luz que o necessário, sem que isso se note. Em contrapartida os sensores digitais têm a tendência a serem muito bons a reter o detalhe nas sombras. Quem não tem medo de processar as fotos mais tarde pode dizer à máquina para sub-expor e depois trabalhar o resultado. Isto é mais fácil em máquinas que permitem obter o ficheiro RAW com os dados brutos vindos do sensor.

Finalmente as grandes vantagens de uma máquina maior e mais pesada, com as lentes correspondentes são:

  • Poder trocar a lente e usar uma lente sem zoom mas muito brilhante e sharp é uma grande vantagem. Ter de carregar as lentes, e o trabalho de as trocar é chato, mas foi resolvido com uma bolsa adequada (altamente recomendada). As minhas lentes favoritas são a 100mm e a 24mm. No entanto não gostaria de usar só uma delas.
  • Com uma lente luminosa e o sensor grande a profundidade de campo é mais pequena. Isto dá bons retratos em que a cara da pessoa está bem focada e o fundo está completamente desfocado.
  • O facto do sensor ser maior permite que apanhe mais luz e que portanto tenha menos ruído. Enquanto que a maior parte das máquinas compactas não vão além dos ISO400 e mesmo assim já com muito ruído, nesta ISO1600 ainda é bastante decente e ISO3200 aceitável embora não muito bom.
  • Esta máquina e a sua irmã mais velha são as únicas nesta gama que possuem estabilização do sensor para reduzir o tremer nas imagens. O que isto quer dizer é que em situações de muito fraca iluminação, com a 24mm e a máquina a ISO1600 ou ISO800, chego a casa e descubro que ando a tirar fotos com instantâneos de 1/5 de segundo e a obter fotos impecáveis (Exemplo).

Se estiverem fartos da vossa compacta digital e quiserem algo maior, mais pesado, mais chato de usar mas melhor vejam a Minolta 5D. Na sua classe e na minha opinião é a melhor escolha de todas, batendo as Nikon e Canon equivalentes.

Para quem isto é desinteressante e enfadonho recomendo que vejam antes as fotos que vou tirando. Também é possível comentá-las, embora ninguém o faça.

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Mensurável?

O que não é mensurável não existe. Só existe aquilo que de alguma forma os nossos sentidos conseguem captar. Será (e com certeza já foi) uma discussão meta-física interessante discutir se há algo para além da nossa realidade. No entanto, para formar a nossa realidade, para decidir o que existe ou não a única coisa que interessa é descobrir as coisas que têm um efeito mensurável.

Na ciência isto é muito importante. Diz-nos que para estudar um fenómeno ou teoria devemos procurar efeitos reproduzíveis da sua existência. Quando não se consegue descarta-se por completo, não por falta de compreensão, mas por haver forte evidência que não existe mesmo.

Pode parecer que estou a dizer que tudo o que não é ciência não existe. Não estou. A ciência interessa-se por coisas que consegue definir com rigor porque quer produzir resultados concretos e não romances. No entanto, produzir romances não é uma actividade irrelevante. As coisas que não são concretas e fortes continuam a existir. A ciência não lhes toca porque não consegue. Falta saber se alguma vez conseguirá.

O que estou a dizer que não existe são as coisas que se tentam esconder dizendo que a ciência não cobre tudo, tentando evitar o sentido crítico das pessoas. A existência da alma ou de fantasmas, a astrologia e tantas outras coisas são candidatas para esta categoria. Para algumas pode ser que se descubram efeitos mensuráveis e se prove a sua existência. Mas enquanto isso não acontecer temos de assumir que não existem.

O ponto é que aquilo que não tem nenhum efeito sobre nós não pode ser considerado parte da realidade. A definição de realidade tem de ser aquilo que tem efeito sobre nós. Se não for, podemos passar o resto dos nossos dias a escrever num papel aquilo que "existe". Podemos inventar como realidade tudo o que quisermos. Isto não quer dizer que para um surdo o som não exista. Mesmo que não consiga ouvir ele próprio, pode usar um instrumento para medir ondas sonoras e detectar a sua presença.

O que não medimos directa ou indirectamente não existe. A realidade é aquilo que observamos com os nossos sentidos porque são esses o nosso único contacto com o exterior. Se conseguirmos substituir completamente todos os estímulos exteriores por outros artificiais a nova realidade não é fingida, é mesmo a realidade. A ideia do Matrix é essa. No filme isto não era assim mas é impossível provar que neste momento não estamos todos dentro da máquina e que o filme em si não foi um pedaço de humor cínico dos nossos mestres mecânicos. A beleza da coisa é que não faz qualquer diferença.

Fuga Escandinávia

Este fim de semana fiz uma visita relâmpago à Finlândia. Fui num barco de cruzeiro até Helsínquia e de volta em dois dias. A cidade é bonita embora prefira Estocolmo, Gotemburgo, ou Copenhaga. As fotos estão no sítio do costume, tal como as da visita algumas semanas atrás a Hamburgo e Bremen.

Estes barcos de cruzeiro têm piada porque são muito requisitados para quem se quer enfrascar e/ou comprar álcool. Como em geral o álcool é muito taxado, dentro do barco é muito mais barato, imagino porque conte como território internacional. Isso torna a viagem em si uma experiência interessante cheia de escandinavos de todas as idades leve ou fortemente ébrios. Já para não falar do contingente Erasmus... É melhor não falar para proteger os culpados... Eu, como toda a gente sabe, não bebo...

Tendência de Esquerda

Uma coisa que descobri por ter comprado botas certas (talvez demais) ao tamanho dos meus pés é que tenho o pé esquerdo maior que o direito. Uma clara viragem à esquerda incluída nos meus genes. O perigo agora é passar a ter pesadelos com o Cavaco atrás de mim de par de sapatos ortopédicos na mão para me corrigir o desvio.

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Eu no Google

Hoje reparei que o Google finalmente lista este site nos primeiros lugares de uma pesquisa pelo meu nome. Pesquisando por "Pedro Côrte-Real" é o terceiro resultado. No entanto, pesquisando por "Pedro Corte-Real" nem sequer aparece nos resultados. O acento chega para que faça toda a diferença. O que está bem. Tirar ou pôr o hífen parece não fazer diferença.

Os resultados que aparecem nessas pesquisas têm piada. Geralmente são mails meus em arquivos de mailing lists e coisas do género. Pode ser que depois deste post a pesquisa por "Pedro Corte-Real" passe a incluir isto. Foi para isso que já escrevi o meu nome três vezes neste post, esta última a bold. Qualquer suspeição de egocentrismo será categoricamente desmentida.

Evangelizar a Educação

Pat Robertson é um tele-evangelista americano. Quando se pôs a hipótese da população votar para tirar apoiantes do criacionismo da autoridade para a educação a sua reacção foi:

"I'd like to say to the good citizens of Dover: if there is a disaster in your area, don't turn to God. You just rejected him from your city," Mr Robertson said on his Christian Broadcasting Network, which claims a daily audience of one million.

Ora, Deus cria os desastres naturais e depois, só porque não votamos nele, nem sequer nos podemos queixar. O sistema eleitoral do céu é muito deturpado. Normalmente o candidato que ganha passa a ser o representante de todos, mesmo dos que não votam nele. Neste caso há uma clara discriminação. Dir-se-ia que Deus tem mau perder. O que é muito perigoso em alguém que é omnipotente. Olha se lhe dá pra fazer birra...

Tolerância Religiosa

A frase comum quando se discute qualquer assunto de religião é que é preciso ser tolerante. Cada qual acredita no que quer e quem somos nós para criticar. Quanto a mim é estar a confundir liberdade religiosa com liberdade de expressão. Cada qual é livre para ter as crenças idiotas todas que quiser. Eu tenho a minha dose como todos nós. Só não espero dos outros que estejam calados.

Se a tua religião tem um sistema instalado de tortura psicológica a criancinhas não esperes que não a critique. Então se somos tão tolerantes e liberais em relação a todas as religiões porque devemos permitir que os pais decidam enfiar as crianças numa sala onde lhes tentam vender como factos coisas que são no mínimo duvidosas. É destruir-lhes a capacidade crítica numa altura em que são especialmente impressionáveis.

Se a tua religião acha que fazer uma transfusão de sangue está mal então pratica isso à vontade. Não esperes é que não te critique por essa decisão. E não esperes que não resista quando quiseres ter o direito de aplicar isso às tuas crianças.

Se a tua religião deixa os homens vestirem-se como quiserem e impõe sobre as mulheres não esperes que não critique.

Se a tua religião acha que mutilar genitais é uma boa ideia não esperes nem que fique calado nem que ache que deva ser tua escolha quando o queres fazer aos teus filhos.

Por alguma razão a religião serve como escudo à crítica. Se o motivo é religioso perdoa-se muito mais e confunde-se a liberdade religiosa com a de expressão. Como em tudo há uma linha entre o que deve ser permitido ou não. E como em tudo não há linha nenhuma a proteger aquilo que não pode ser criticado. Reservo-me o direito de criticar tudo aquilo que me apetece e em troca só espero que me critiquem a mim.

O altruísmo não existe

O altruísmo não existe. É uma invenção perigosa porque nos faz crer que querermos coisas para nós próprios está de alguma forma errado.

Para fazermos o que quer que seja precisamos de uma razão. Expliquei isso uma vez a alguém que me estava a perguntar que razões tinha eu para não ir à praxe. Não são precisas razões para não fazer alguma coisa. O estado inicial é não fazer nada. precisamos de uma qualquer razão para actuar.

O altruísmo não existe porque implica que estamos a fazer alguma coisa somente motivada por razões ou necessidades de outros. Mas para que alguém faça alguma coisa precisa primeiro de uma razão própria. Não lhe bastam as dos outros. Tudo o que fazemos vem de uma razão egoísta qualquer. Mais ninguém vive nas nossas cabeças a puxar cordéis.

Embora isto pareça frio e pouco solidário com os outros na realidade não é. Não resulta disto que só façamos coisas que nos beneficiam directamente a nós. Dentro das razões que arranjamos para fazer tudo o que de bom e mau se passa no mundo arranjamos razões para fazer bem aos outros. E fazemos isso porque nos faz sentir bem, porque a longo prazo traz vantagens, porque...

O altruísmo não existe como noção de feitos bondosos feitos sem motivação pessoal. Da mesma maneira que um corpo em repouso precisa de uma força para se mover nós precisamos de uma razão para fazermos aquilo que fazemos. E não é isso que faz de nós boas ou más pessoas.

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