O que não é mensurável não existe. Só existe aquilo que de alguma forma os nossos sentidos conseguem captar. Será (e com certeza já foi) uma discussão meta-física interessante discutir se há algo para além da nossa realidade. No entanto, para formar a nossa realidade, para decidir o que existe ou não a única coisa que interessa é descobrir as coisas que têm um efeito mensurável.
Na ciência isto é muito importante. Diz-nos que para estudar um fenómeno ou teoria devemos procurar efeitos reproduzíveis da sua existência. Quando não se consegue descarta-se por completo, não por falta de compreensão, mas por haver forte evidência que não existe mesmo.
Pode parecer que estou a dizer que tudo o que não é ciência não existe. Não estou. A ciência interessa-se por coisas que consegue definir com rigor porque quer produzir resultados concretos e não romances. No entanto, produzir romances não é uma actividade irrelevante. As coisas que não são concretas e fortes continuam a existir. A ciência não lhes toca porque não consegue. Falta saber se alguma vez conseguirá.
O que estou a dizer que não existe são as coisas que se tentam esconder dizendo que a ciência não cobre tudo, tentando evitar o sentido crítico das pessoas. A existência da alma ou de fantasmas, a astrologia e tantas outras coisas são candidatas para esta categoria. Para algumas pode ser que se descubram efeitos mensuráveis e se prove a sua existência. Mas enquanto isso não acontecer temos de assumir que não existem.
O ponto é que aquilo que não tem nenhum efeito sobre nós não pode ser considerado parte da realidade. A definição de realidade tem de ser aquilo que tem efeito sobre nós. Se não for, podemos passar o resto dos nossos dias a escrever num papel aquilo que "existe". Podemos inventar como realidade tudo o que quisermos. Isto não quer dizer que para um surdo o som não exista. Mesmo que não consiga ouvir ele próprio, pode usar um instrumento para medir ondas sonoras e detectar a sua presença.
O que não medimos directa ou indirectamente não existe. A realidade é aquilo que observamos com os nossos sentidos porque são esses o nosso único contacto com o exterior. Se conseguirmos substituir completamente todos os estímulos exteriores por outros artificiais a nova realidade não é fingida, é mesmo a realidade. A ideia do Matrix é essa. No filme isto não era assim mas é impossível provar que neste momento não estamos todos dentro da máquina e que o filme em si não foi um pedaço de humor cínico dos nossos mestres mecânicos. A beleza da coisa é que não faz qualquer diferença.