Arquivo: Maio de 2005

Domingos Soalheiros

É em domingos bonitos e soalheiros como hoje que aproveitaria uma dose de poderes divinos. Gostava de poder fazer trovejar e chover, ventar e sobressaltar o mar. Gostava de poder fazer tocar a música que me vai dentro nas coisas que vejo.

Os ciclistas e corredores, todos felizes e cansados, não faziam parte da minha imagem para o dia de hoje. Era dia de estar parado com um chá quente na mão a ver chover torrencialmente.

Felizmente o mau humor já passou e o sol faz o favor de ir embora.

PS: Parece que isto já é um blog de estados de espírito.

Festas de Família

Há coisas que nunca mudam. Durante anos julguei que quando fosse mais velho deixariam de acontecer certas coisas nas festas de família. Por exemplo, que iam deixar de dizer que tinha crescido muito. Mas não. Outro clássico é trocarem-me o nome pelo do meu pai. Aprendi a não corrigir as pessoas, já que na realidade sabem o meu nome e não reparam que o trocaram. Se não disser nada ninguém dá por isso.

Deixei de achar que isto vai deixar de acontecer. De crescer já parei há algum tempo e o meu nome nunca foi outro. Estou resignado.

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Prepotência autista

O nosso fantástico Presidente da Câmara continua na sua cruzada tresloucada contra o governo e o IPPAR para que o deixem fazer o que quer no túnel de Ceuta. A total incompetência dos jornalistas portugueses dá cobertura a esta situação. Entrevistam-se os comerciantes da zona que se queixam da ministra. Cobrem as entrevistas do energúmeno em que anuncia processos judiciais por abuso de poder do IPPAR e da ministra. Mas nunca se explica que a obra do túnel de Ceuta está encravada porque é uma obra ilegal. O presidente da câmara resolveu começar a obra sem licença e agora julga-se no direito de pressionar tudo e todos, em nome da cidade, para que o seu desastre administrativo esteja resolvido nas autárquicas.

Este presidente, que se apresentava como um pilar do rigor financeiro, começou uma obra ilegal. Mais tarde esta ilegalidade tornou-se problema e parou a obra. Diariamente, sangram dos cofres do município milhares de euros de compensação para a construtora pela paragem das obras. Este é um exemplo do que conseguiu Rio no seu mandato. Um fantástico desenrolar de momentos de completa loucura por parte dele e dos seus vereadores. Para mais informação basta ir ao A Baixa do Porto.

Desequilíbrios fluídos

Acontece de vez em quando. O mundo conspira e mostra-nos o quão humanos somos. Não costumo chorar, mas agora há razão para isso. Procuro algo que me alivie e liberte serenamente aquilo que não posso manter dentro. Tusso e praguejo para fugir do mal que vai dentro de mim. De nada serve. Resta esperar dias melhores.

PS: Estou constipado

Obrigado pela prenda

Um par de sapatos

You're talking your walk
'Cause you can't refuse
Learning to walk
In those dancin' shoes
Now you hurt somewhere
They won't find a bruise
Learning to walk
In those dancin' shoes

Obrigado pela prenda. Agora só tenho de aprender a andar neles.

Programação é arte?

Parece idiota perguntar se um programa de computador pode ser uma obra de arte. Talvez se for um programa para uma instalação de arte moderna, parte de uma obra maior. Mas o nosso editor de texto ou sistema operativo não será. É uma máquina, tem uma função definida, executa-a. Não tem nada de artístico. Ou terá?

Tentei e desisti começar por definir o que é a arte. Não sou especialista na matéria. Raciocinemos por exemplos. Arquitectura é arte. Pintura é arte. Fotografia é arte. Literatura é arte. Aonde a Programação parece destoar destes exemplos é em ter uma função bem definida, ser uma técnica usada para resolver problemas concretos. Mas será que destoa? A Arquitectura deve ser funcional. A Fotografia é uma técnica para registar imagens.

Prefiro analisar a questão do ponto de vista do processo de criação. Se estiver a fazer uma qualquer tarefa mecânica, não acrescento arte ao processo. Sou eu próprio uma máquina. Mas embora os programas que escrevo sejam eles próprios máquinas, o processo que os produziu não é descrito por nenhuma acção mecânica repetitiva. Um quadro é "só" um conjunto de camadas de tinta sobrepostas de uma maneira qualquer. O processo que o criou é que não é algo mecânico e bem definido, é uma arte.

Diria que para que uma dada técnica possa ser usada para criar obras de arte tem de ser suficientemente expressiva para representar o estilo do artista. As engenharias tradicionais lidam com restrições físicas e têm esta capacidade expressiva limitada (mas não anulada). É possível argumentar que estas técnicas também podem produzir arte. O caso da programação é mais forte. As restrições físicas são consideravelmente menores, pelo que o número de maneiras para fazer uma dada coisa é muito maior. Aqui se abre o espaço para as soluções imaginativas e conceptualmente belas (tema para outro texto).

Talvez o argumento mais forte para mostrar que a programação é uma arte é o facto de ter público. Ler código escrito por outras pessoas é uma óptima forma de aprender novas técnicas de programação. Quando é mesmo bom é também um prazer.

Programação é arte, ou pode ser. Não tenho dúvidas disso. Sinal de que estou enganado?

Auto-retrato

Não sou aquilo que escrevo
Nem o que faço
Nem o que digo
Às vezes sou aquilo que sinto
Geralmente minto.

Pollock Number 8
Number 8, 1949 (detail)
Jackson Pollock

Quando me olho no espelho vejo apenas uma imagem, algo que por habituação identifico como sendo eu. Não há nada aí que me defina. Nada que conte uma história, que mostre como sou realmente. Quando penso em mim não vejo a minha cara, vejo-me pela minha perspectiva.

O primeiro fascínio de qualquer fotógrafo adolescente são as suas mãos e pés. Queremos retratar aquilo que mais identificamos como sendo nosso, aquilo que para mais olhamos.

Vejo-me ainda melhor se fechar os olhos. Olho para dentro e penso naquilo que sou quando não estou a tentar ter bom aspecto, impressionar alguém ou resolver um problema. Olho para dentro e vejo-me a mim, com os meus defeitos e maneira de ser.

Se quiserem saber quem sou mais vale olharem para um quadro de Pollock ou uma fuga de Bach. Não me comparo a tais obras, seria por demais presunçoso. Vejo é nelas imagens mais fiéis de quem sou do que qualquer máquina fotográfica seria capaz de capturar. Se soubesse pintar ou escrever música esta entrada seria um quadro ou uma pauta, e não um texto longo para dizer pouco.

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Ritmo e Música

A sociedade humana funciona segundo um ritmo, uma cadência que nos impõe; bater sincopado de um metrónomo que marca o passo pelo qual nos movemos; passo cada vez mais rápido.

O contributo de cada um é medido pela adequação do seu comportamento a este bater constante. Enganamo-nos com distrações várias para escondermos de nós próprios o facto de sermos mais uma peça desta engrenagem.

Este ritmo social é-nos estranho porque não é musical, não soa bem, é repetitivo. Ao mesmo tempo é avassaladoramente forte, impossível de resistir.

Este é o meu argumento de hoje para mostrar que deus não existe. Se o mundo tivesse sido desenhado teria uma música por detrás, não teria tendido para o andamento repetitivo, faria sentido ouvi-lo. O que acontece é que por todo o lado temos a sociedade a marcar-nos o passo. Sempre que conseguimos, resistimos e saltamos uma batida.

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Motivação

É impressionante como a nossa capacidade de trabalho depende tanto da motivação que temos. Nestas alturas de muitos trabalhos oscilo facilmente entre momentos em que tudo parece fácil para outros em que parece impossível.

Há dias em que o mundo é rosa, tudo corre bem. Dias que trazem do fundo de mim aquela personagem estranha que vive excitada e contente, não cabendo em si.

Há dias em que o mundo é cinzento, nada fica feito e apetece mergulhar a cabeça no banho até que nos enrugue o mau feitio.

Finalmente há os dias normais, da preguiça ociosa de quem quer tudo sem esforço. Dias de fraqueza espiritual diriam. Enganam-se. Nada mais normal à natureza do que tender naturalmente para o comportamento de menor gasto de energia.

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Olhando para trás

Passos sobre a areia da praia
O meu caminho

De vez em quando somos levados pela tendência de nos virarmos para trás, de arrepiar caminho. É um erro.

O caminho não é certo nem sem curvas mas o que já lá vai já foi e será apagado quando a maré subir.

Só temos influência no futuro. O passado passou, não tem peso nem cheiro, não chama por nós. Deixem-no estar que ele lá ficará.

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