Anda-se a discutir a limitação do número de mandatos consecutivos nos cargos públicos. A discussão anda em volta de se se aplica isso já ou se só se começa a contar agora. Esse é um problema político pouco interessante. Preocupa-me mais perceber se isto faz ou não sentido.
A ideia de que depois de um número definido de mandados a pessoa não deve ter mais direito a candidatar-se ao cargo é estranha. É uma limitação à liberdade da pessoa e uma condicionante à escolha popular dos dirigentes. Não arranjo nenhum argumento filosófico ou ideológico que possa justificar isto. Pelo contrário, arranjo vários contra.
Não há argumentos ideológicos que justifiquem esta medida, mas há uma quantidade considerável de razões pragmáticas para o fazer. O poder corrompe, e o tempo só ajuda. O cacique competente utiliza o próprio poder para garantir a sua continuidade. Trabalha para isto e não para os objectivos do cargo que desempenha. Alberto João Jardim é um bom exemplo.
Esta medida vale a pena e percebe-se face ao panorama. Só irrita pensar porque é que a escolha popular não é capaz de fazer o mesmo. Aqui entra a injustiça inevitável do sistema de um voto por pessoa. O voto da pessoa informada vale tanto como o da que votou com os olhos fechados e como o do escravo partidário. Nem pode ser de outra maneira. Isto faz com que seja mais vantajoso contentar os desejos simples da multidão ignorante do que responder às críticas válidas. O incentivo é errado. A culpa não é deles, é nossa, dos eleitores. Lembrem-se disso da próxima vez que não votarem porque "não faz diferença", ou não ligarem à campanha porque "é só promessas". Há quem esteja farto dos políticos, eu farto-me é destes eleitores.