Arquivo: Abril de 2005

A minha cidade

O Porto visto do rio
O Porto visto do rio.

Esta é a minha cidade. Perfeitamente limitada pelo rio Douro, a estrada da Circunvalação e o Mar. Não tenho dúvida de onde começa e acaba, nem crises de identidade sobre o que é e representa.

Foi aqui que sempre vivi. Foi aqui que nasci. Daqui nunca sairei, esteja onde estiver.

Viajo por ela como quem visita uma amiga de longa data. Penso nela como a amante que nunca largarei.

Por todo o lado estão as minhas recordações. As paredes não são só pedra, tinta e lixo. Têm o meu passado escrito de forma invisível para todos os outros. Falam comigo com a voz suave de quem nos conhece.

O dia em que tudo isto arder será o dia da minha morte. Podem juntar as minhas cinzas às outras que passarei a eternidade feliz. Feliz por estar em casa.

A cultura das linguagens de programação

Hoje estava a estudar os padrões de software do famoso GoF book e descobri que já tinha usado muitos dos padrões descritos sem saber que o estava a fazer. Primeiro achei que seria porque sou fantástico e consegui inventar aquilo tudo de novo sozinho. Quando o sangue me voltou a descer da cabeça percebi que a razão porque já conhecia aqueles padrões era que o Java utiliza muitas daquelas construções nas suas bibliotecas. Fui exposto a elas e, talvez inconscientemente, reutilizei-as.

O ambiente de programação vale não só pela funcionalidade que tem mas pela cultura que vem atrás. Exemplos escolhidos ao acaso:

  • O C é uma linguagem altamente poderosa e muito concisa e consistente mas as suas bibliotecas standard são incompletas e desactualizadas. Um exemplo comum disto é o tratamento de erros. O C não tem excepções, os erros são passados como valores de retorno das funções. Por todo o lado há funções que podem retornar erros. A reacção vulgar do programador pouco experiente é ignorar os valores de retorno por completo. Mesmo os programadores experientes têm a tendência para se enganarem, já que a maneira de retornar o erro é diferente de função para função.
  • As linguagens OO acrescentam primitivas poderosas para a estruturação de programas. Pode-se programar em estilo imperativo nelas mas isso não acontece porque a cultura e a filosofia tanto da linguagem como das bibliotecas empurram o programador para a estruturação em objectos do seu código.

As linguagens de programação não valem apenas pelas coisas giras que nos deixam fazer mas também pelas direcções filosóficas em que nos empurram. Dir-se-ia que tão importante como o que nos deixam fazer é o que não deixam, a forma como nos empurram para soluções diferentes das que estamos habituados por ser essa a filosofia da linguagem.

Limitação de Mandatos

Anda-se a discutir a limitação do número de mandatos consecutivos nos cargos públicos. A discussão anda em volta de se se aplica isso já ou se só se começa a contar agora. Esse é um problema político pouco interessante. Preocupa-me mais perceber se isto faz ou não sentido.

A ideia de que depois de um número definido de mandados a pessoa não deve ter mais direito a candidatar-se ao cargo é estranha. É uma limitação à liberdade da pessoa e uma condicionante à escolha popular dos dirigentes. Não arranjo nenhum argumento filosófico ou ideológico que possa justificar isto. Pelo contrário, arranjo vários contra.

Não há argumentos ideológicos que justifiquem esta medida, mas há uma quantidade considerável de razões pragmáticas para o fazer. O poder corrompe, e o tempo só ajuda. O cacique competente utiliza o próprio poder para garantir a sua continuidade. Trabalha para isto e não para os objectivos do cargo que desempenha. Alberto João Jardim é um bom exemplo.

Esta medida vale a pena e percebe-se face ao panorama. Só irrita pensar porque é que a escolha popular não é capaz de fazer o mesmo. Aqui entra a injustiça inevitável do sistema de um voto por pessoa. O voto da pessoa informada vale tanto como o da que votou com os olhos fechados e como o do escravo partidário. Nem pode ser de outra maneira. Isto faz com que seja mais vantajoso contentar os desejos simples da multidão ignorante do que responder às críticas válidas. O incentivo é errado. A culpa não é deles, é nossa, dos eleitores. Lembrem-se disso da próxima vez que não votarem porque "não faz diferença", ou não ligarem à campanha porque "é só promessas". Há quem esteja farto dos políticos, eu farto-me é destes eleitores.

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Encostado e reaccionário

Noto muitas vezes que me acomodo e quero mais do mesmo, fico com medo da mudança. Como se queixa a Fiona Apple sobre a indústria musical:

And you can hear our sad brain screaming
Give us something familiar
Something similar
To what we know already
That will keep us steady
Steady
Steady going nowhere

É coisa triste estar satisfeito. Não ter dois ou vinte bons livros ainda por ler. Não ter quatro ou cinco assuntos que incomodem para mandar vir aqui. Passar a vida a ouvir a mesma música e a fazer as mesmas coisas, aturando as mesmas pessoas.

Depois quero fugir (um e dois), mas só no papel. Não se pode fugir quando se está encostado. A fuga é sempre para a frente ("Steady/Steady going nowhere").

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Mestre da fuga

Os meus pés em frente à praia
Sentado numa pedra olhando o mar

Nos últimos tempos tornei-me um verdadeiro "mestre da fuga", embora talvez não um "mago supersónico". De vez em quando meto-me no carro e rumo à praia. Escolho praias com rochas, porque areais e água são coisas desconsoladas. Gosto do espectáculo do mar a bater. É engraçado ver como um movimento cíclico pode ser tão caótico. Gosto de passear em cima das rochas, sem a monotonia que é a areia lisa.

Hoje fugi até Mindelo e aproveitei para tirar umas fotos. Como podem ver entrei no grupo dos fotógrafos1 que se auto-retratam. É um grupo menos perigoso do que o dos médicos que experimentam em si próprios mas mais preocupante que o grupo dos idiotas que têm um blog inútil sobre si. Subo de escalão portanto.

1 "fotógrafo" é utilizado liberalmente.

Vozes na rádio

You've got a fast car
And I've got a plan to get us out of here
(...)

You've got a fast car
But is it fast enough so we can fly away?
We have got to make a decision
We leave tonight or live and die this way

Bom ritmo e bom conteúdo. É pena que a decisão já esteja tomada.

Dar de novo com a cabeça na parede

Há coisas que sabemos que nos farão mal e que não evitamos. Seguimos em frente até à proverbial parede e batemos. Recuamos um pouco, abanamos a cabeça e avançamos de novo. A parede não vai mover-se, e partir só mesmo a cabeça, mas continuamos. Esta é a minha proposta para o que nos separa dos animais. Evoluímos o suficiente para sermos capazes de impedir o reflexo condicionado. Não sei se será uma vantagem competitiva. Eu uso-a para me fazer sentir mal de vez em quando...

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Gosto de me ouvir falar

Acrescentei comentários ao blog e nem um recebi. Sempre que me ponho a falar de alguma coisa não me calo. Sempre que escrevo um relatório apetece-me escrever demais, passo os limites de páginas. Só se conclui uma coisa, que gosto de me ouvir a mim próprio. Sinal de um desiquilíbrio qualquer de que sofro, e vocês ainda mais (todos os 3).

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