Os media tradicionais forçam que o conteúdo que consumimos (livros, música, filmes, etc) seja produzido para apelar a uma larga maioria da população. Não há espaço de divulgação suficiente para outra coisa. Tal como acontece com a informação, a net muda tudo. É aqui que entra o fenómeno da cauda do conteúdo (artigo da Wired).
O caso Fiona Apple fez-me pensar nesta questão. A revolução de massas também se aplica à música. As editoras são o intermediário por excelência e são cada vez menos necessárias. Os custos de produzir música baixaram drásticamente. Um estúdio caseiro é relativamente barato. As bandas já não precisam das editoras para lhes financiarem os álbuns. A editora é uma promotora; compra tempo de antena, faz marketing, produz os discos e distribui-os. O file-sharing/P2P resolve metade destes problemas, acabando com os CD's, tornando a distribuição gratuita.
O que este novo modelo de distribuição permite é que qualquer pessoa introduza conteúdo no sistema. É isto que assusta as editoras, não são as vendas perdidas. Já se viu que o file-sharing faz aumentar as vendas. O que a venda online, as redes de distribuição e os blogs permitem é espaço de divulgação infinito. Antigamente tínhamos a rádio, a televisão e os jornais. Estes meios têm espaço limitado, pelo que a tendência é para que só com grande poder económico possamos aceder. Esta tendência leva às grandes marcas e aos artistas mainstream. Só um conjunto muito limitado de pessoas pode aceder aos media tradicionais, mas qualquer um pode aceder à net.
Com sites como o Ourmedia onde podemos colocar conteúdo para que toda a gente saque já nem é preciso arranjar espaço e largura de banda para divulgar o que produzimos. Se quiser posso produzir um filme ou editar um álbum e distribui-lo pela net sem grande dificuldade. Este modelo não serve para produzir o próximo Matrix mas torna o acesso ao meio muito mais democrático.
O que o artigo da Wired (altamente recomendado) que referi acima mostra é que a tendência é para que os gostos das pessoas fiquem mais especializados. Tornou-se mais fácil produzir conteúdo e encontrá-lo o que faz com que uma grande percentagem dos artistas que não tinham acesso ao público passem a ter.
O que é surpreendente nesta revolução é que já aconteceu:
What's really amazing about the Long Tail is the sheer size of it. Combine enough nonhits on the Long Tail and you've got a market bigger than the hits. Take books: The average Barnes & Noble carries 130,000 titles. Yet more than half of Amazon's book sales come from outside its top 130,000 titles. Consider the implication: If the Amazon statistics are any guide, the market for books that are not even sold in the average bookstore is larger than the market for those that are.
A Amazon deve mais de metade das suas vendas à enorme diversidade do seu catálogo. Isto mostra como há nichos de mercado, que os meios de distribuição e produção tradicionais não conseguem servir, mas que todos somados são uma enorme fatia do mercado. Isto tanto se aplica às vendas da Amazon como à produção própria de filmes. Eu não teria qualquer hipótese de divulgar um filme independente feito por mim no modelo tradicional. Agora posso, e teria alguma probabilidade (tivesse eu talento) de arranjar um nicho de público disposto a vê-lo.