Arquivo: Março de 2005

Agora com comentários

Acrescentei a possibilidade de se comentarem as entradas do blog. Espero que seja suficientemente simples de usar e que não seja abusado para encher isto de lixo. Não terei qualquer problema em remover comentários, se disso for caso.

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Tirem-me tudo menos a Net

Imagem de uma construção pequena

É costume passar fins de semana na nossa pequena quinta. Como não sei viver sem rede é este o sítio onde passo muito desse tempo.

Esta é a corte onde o moleiro guardava o burro. Chama-se corte da burra. Foi a primeira construção a ser renovada e é aqui que chega a electricidade e o telefone com ADSL. A ideia é passar a ser a nossa oficina. Falta-lhe o trabalho de carpinteiro para forrar o telhado por dentro e fazer móveis.

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A cauda do conteúdo

Os media tradicionais forçam que o conteúdo que consumimos (livros, música, filmes, etc) seja produzido para apelar a uma larga maioria da população. Não há espaço de divulgação suficiente para outra coisa. Tal como acontece com a informação, a net muda tudo. É aqui que entra o fenómeno da cauda do conteúdo (artigo da Wired).

O caso Fiona Apple fez-me pensar nesta questão. A revolução de massas também se aplica à música. As editoras são o intermediário por excelência e são cada vez menos necessárias. Os custos de produzir música baixaram drásticamente. Um estúdio caseiro é relativamente barato. As bandas já não precisam das editoras para lhes financiarem os álbuns. A editora é uma promotora; compra tempo de antena, faz marketing, produz os discos e distribui-os. O file-sharing/P2P resolve metade destes problemas, acabando com os CD's, tornando a distribuição gratuita.

O que este novo modelo de distribuição permite é que qualquer pessoa introduza conteúdo no sistema. É isto que assusta as editoras, não são as vendas perdidas. Já se viu que o file-sharing faz aumentar as vendas. O que a venda online, as redes de distribuição e os blogs permitem é espaço de divulgação infinito. Antigamente tínhamos a rádio, a televisão e os jornais. Estes meios têm espaço limitado, pelo que a tendência é para que só com grande poder económico possamos aceder. Esta tendência leva às grandes marcas e aos artistas mainstream. Só um conjunto muito limitado de pessoas pode aceder aos media tradicionais, mas qualquer um pode aceder à net.

Com sites como o Ourmedia onde podemos colocar conteúdo para que toda a gente saque já nem é preciso arranjar espaço e largura de banda para divulgar o que produzimos. Se quiser posso produzir um filme ou editar um álbum e distribui-lo pela net sem grande dificuldade. Este modelo não serve para produzir o próximo Matrix mas torna o acesso ao meio muito mais democrático.

O que o artigo da Wired (altamente recomendado) que referi acima mostra é que a tendência é para que os gostos das pessoas fiquem mais especializados. Tornou-se mais fácil produzir conteúdo e encontrá-lo o que faz com que uma grande percentagem dos artistas que não tinham acesso ao público passem a ter.

O que é surpreendente nesta revolução é que já aconteceu:

What's really amazing about the Long Tail is the sheer size of it. Combine enough nonhits on the Long Tail and you've got a market bigger than the hits. Take books: The average Barnes & Noble carries 130,000 titles. Yet more than half of Amazon's book sales come from outside its top 130,000 titles. Consider the implication: If the Amazon statistics are any guide, the market for books that are not even sold in the average bookstore is larger than the market for those that are.

A Amazon deve mais de metade das suas vendas à enorme diversidade do seu catálogo. Isto mostra como há nichos de mercado, que os meios de distribuição e produção tradicionais não conseguem servir, mas que todos somados são uma enorme fatia do mercado. Isto tanto se aplica às vendas da Amazon como à produção própria de filmes. Eu não teria qualquer hipótese de divulgar um filme independente feito por mim no modelo tradicional. Agora posso, e teria alguma probabilidade (tivesse eu talento) de arranjar um nicho de público disposto a vê-lo.

Revolução de Massas

Anteontem a Netcabo falhou. Dizem muito mal mas cá em casa já funciona bem há muito tempo. O que isso me fez perceber é que passo bem sem televisão mas sem rede desespero. Já não me imagino a usar um computador sem ligação à rede.

Está a acontecer uma lenta revolução das massas, e não estou a falar de nada que se coma. Os blogs, que já toda a gente conhece são um exemplo desta revolução. A distribuição de notícias foi profundamente alterada. O modelo das grandes cadeias televisivas e dos jornais de referência foi alterado pela facilidade com que qualquer um cria um blog. Hoje em dia leio as notícias de muitas fontes diferentes, em vez de ler o jornal. Confio mais na leitura agregada de muitas fontes do que no melhor jornal, porque o jornalista não é especialista em nada, é um processador de factos. Com os blogs leio textos escritos por especialistas nas matérias.

Os blogs não alteram a quantidade de conhecimento disponível, o que fazem é aproximar a pessoa que lê do especialista na matéria. Dir-se-ia que eliminam o intermediário, mas não é verdade. Não é possível ler os blogs todos necessários para que nos mantenhamos informados sobre todas as matérias. O que acontece é que a estrutura hiperligada da Net resolve este problema. Eu leio uma centena de blogs, e essas pessoas lerão a sua centena. Se cada um falar das coisas que mais lhe interessarem teremos uma estrutura distribuída de selecção de notícias.

Isto é um exemplo da revolução das massas. Deixamos de precisar de estruturas centralizadas para todo o processamento de notícias. Isto não quer dizer que não haja lugar para jornais e televisões; este modelo não funciona bem para cobrir guerras ou desastres naturais. Diria que se complementam.

Fiona Apple

Alguém na Sony achou que era boa ideia não comercializar o último álbum de Fiona Apple. A campanha para que seja lançado está aqui. Entretanto o álbum saiu na net. Saquei-o daqui.

Não conhecia Fiona Apple. Continuo a não conhecer nada para além deste álbum. Mas pelo menos este vale a pena, mesmo.

Eu nunca saco música da Net, mas neste caso e no do último CD do Jorge Palma foi o que acabou por acontecer. Não por minha escolha mas porque a própria editora não me quer vender um CD.

Outro ponto a notar é que até ter ouvido este CD sacado na Net nunca me tinha passado pela cabeça comprar um CD deste artista. Agora estou a pensar nisso. O que os estudos mostram é que o P2P fez aumentar as vendas de CD's:

(Links obtidos em 5 minutos no Google, valem o que valem)

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A chuva veio

A chuva veio e trouxe o vento. Com eles veio o frio no vidro da janela onde encosto a cara. Há prazeres que não explico, mas dos quais também não me arrependo nem envergonho. Porque não acredito no sol sem a tempestade antes. Porque não suporto as coisas que ficam na mesma. Ser reaccionário é um luxo que reservo para mim.

Ver chover

Hoje apetecia-me ver chover. O céu não ajuda. Goza comigo com uma gota de vez em quando, mas o que eu quero é um aguaceiro. Quero ouvir chover e sentir a segurança calma de estar protegido. Quero ver as poças de manhã, sentir a humidade no ar. Quero uma Primavera por favor, e dispenso as flores.

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Multiplicidade

Não sei se alguém sabe mas na realidade eu sou várias pessoas diferentes. Dependendo do tempo, do estado do espírito, do que é preciso fazer, um de nós sai à rua. Temos aparências iguais e a mesma memória factual do que aconteceu no passado (conversamos muito). No entanto vemos o mundo de maneiras diferentes. Um de nós tenta ser simpático e afável. Outro é chato, às vezes cruel e nem sequer tenta causar boa impressão (nenhum de nós consegue). E fora estes há outros. Alguns especializados em certas funções, outros irrelevantes e adormecidos.

Eu... nós... partilhamos o espaço que nos foi concedido mas também o tempo que vai sendo fornecido. Há dias em que co-existimos sem conflito porque não há nada para fazer nem sentir. Normalmente um de nós sente a necessidade de tomar conta, acorrentar o resto à banheira e viver. Os dias piores são quando esta luta não tem fim e a banheira fica solitária enquanto esgrimimos pelo controle.

Nós... eu... não vejo o mundo como um todo coerente. Admiro-lhe as facetas diferentes que se mudam e reinventam mas que têm a característica sórdida de parecerem novamente iguais de tempos a tempos. Esta propriedade fractal do mundo vejo-a em mim, e pergunto se de cada vez que encontro o mesmo Eu ele aprendeu alguma coisa. Espero que sim e normalmente suspeito que não.

Momentos de silêncio

De vez em quando alguém se queixa que não actualizo o blog. É verdade. Só escrevo quando tenho alguma opinião para partilhar. Não gosto de tornar os posts representações de estados de espírito. Essas são frases que guardo para escrever com uma caneta nuns caderninhos que amontoo num canto para se alguma vez quiser ler. Quando por alguma razão recorro a isto o blog pára para manutenção; a minha manutenção.

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